

Ressaca
Por Nara Correia
Mais uma vez, e lá estava ela... o gosto de cabo de guarda-chuva e sapato velho na boca. Os olhos, que se abriam com dificuldade, latejavam com a luz que entrava pela janela. Havia esquecido as cortinas abertas na noite anterior, da qual pouco se lembrava. Também não se lembrava de como havia chegado ao seu quarto. A figura masculina sentada no chão e debruçada a seus pés, disputando o espaço com o gordo e peludo gato, parecia sonhar. De sua imagem havia uma vaga e tênue lembrança, não sabia se da noite anterior ou de longas datas. A ressaca ainda estava forte. Esfregou os olhos para tentar enxergar melhor. Se aproximou para conseguir definir melhor suas feições. Era tão jovem quanto ela, talvez um pouco mais velho. Sua pele bronzeada mostrava que gostava de sol. Pelos músculos do braço que apareciam por sob a camiseta, provavelmente praticava algum esporte ao sol. Surfista talvez? Os cabelos escuros e cacheados confirmavam a suspeita pelas pontas queimadas e um pouco ressecadas pela água do mar. A luz bateu forte em seus olhos, e ela desviou um momento sua atenção para olhar pela janela. Era verdade, seu apartamento era em frente à praia. Se voltou ao objeto de estudo. A boca, entreaberta num quase sorriso, mostrava dentes perfeitos. Devia haver algum defeito neles, ou era buscada a perfeição, pois conseguiu ver que usavam um daqueles aparelhos. A boca se fechou. Foi obrigada a olhar o restante do rosto. O nariz parecia bem escolhido e proporcional ao rosto, colocado perfeitamente. A boca permanecia fechada. Sua cabeça latejou, ressaca. Lembrou-se das doses de vodka. Levou sua mão à cabeça e olhou para a dele. Havia um sulco em suas têmporas. Apenas um sulco ou hastes de óculos? Olhou em volta, e novamente para o rosto. Eram hastes. Na mesa havia óculos que não eram seus, pois só usava os escuros, para esconder o restinho da ressaca que teimava em não passar. Naquele rosto, na base do nariz, também haviam marcas de quem constantemente necessitava deles para auxiliá-lo. A boca não se abria. Que fixação pela boca Deus do Céu!!!! Devia ser a caipirinha. Os olhos cansados seriam outro sinal dos óculos ou uma noite mal dormida aos pés de sua cama a protegê-la? Um pouco dos dois. E qual seria a cor deles? Deviam ser belíssimos, rodeados pelos longos e belos cílios. Seus dedos brincavam no cabelo dele e, sem perceber, lentamente deslizavam pelo rosto, passando suavemente pelos enigmáticos olhos e chegando aos lábios que lhe causava tantas sensações. Seus dedos ficaram parados por um momento e sua mente se esvaziou. Era a amarulla ou o quer que tenha bebido. Seus lábios trocaram de lugar com os dedos, que agora seguravam seu próprio cabelo. Os olhos misteriosos se abriram. Eram verdes. Como o mar que via de sua janela e que aquele corpo devia se banhar sempre, pois era queimado de sol, assim como os cabelos ressecados. Os olhos e a boca se abriram num sorriso. O aparelho só buscava a perfeição, os dentes eram realmente belos. Ele se apoiou nos cotovelos, elevando um pouco o tronco do contato com a cama e espantando o gato, que fugiu pela porta entreaberta. A voz que saiu da boca era suave e ao mesmo tempo forte, como o mar que via de sua janela. “Bom dia!”, foi o que ouviu. Se esqueceu da vodka,caipirinha, tudo o que havia tomado, da ressaca, do gosto de cabo de guarda-chuva e sapato velho na boca, dos olhos que não se abriam, do gato gordo e peludo que fugira. Só via o rosto queimado de sol, com olhos e voz de mar. “Bom dia querido!! Obrigada por me trazer de novo!”.

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