Mercado Negro Discos - Compra e Venda*

pro Edu Rodrigues

“Ando meio desligado. Mutantes, né?” Olhei por cima dos óculos e fiz que sim com a cabeça. Continuei conferindo as saídas dos discos no caderno aspiral universitário com capa do Thiago Lacerda (eu pedi pro Johnny comprar o da Luana Piovani, ele disse que tinha acabado... F.d.P.): Pink Floyd – Obscured by Clouds; Johnny Rivers – Greatest Hits; Orquestra Tabajara.
“Meninos e Meninas. Legião?” Assenti novamente. Os clientes normalmente só procuram músicas, não Lps. A maioria compraria os compactos, que não são mais fabricados. Duas músicas e só. Eram bacanas, e mais baratos, os disquinhos.

De repente o Gordo chegou. De repente não, porque o Gordo era presença diária na loja. Fã de Fagner, Amelinha e Zé Geraldo. O típico bicho grilo, antigo “poncho e conga”. Ele me chama de “careca” e eu o chamo de “estúpido” (pode ser sem as aspas). Outro dia em que ele me pede discos que sabe que eu não compro tem uns 20 anos. Mando ele pra loja do Oscar, onde ele é persona non grata, ele nunca pisa na loja onde poderia comprar os tais discos. Puta mala, mas não consigo mandar o cara pro inferno.

Enquanto o Gordo me aluga, um espertinho acha que eu não o vi colocando um disco fora da ordem, querendo “esconder” o achado. Depois que ele sai vou colocar a bolacha na ordem, é quando uma menina vê o disco, Rod Stewart, e arremata no ato. Tem gente com gosto pra tudo nessa vida.

“Fera Ferida do Roberto, qual o disco mesmo?” Aí já é pedir demais. Estou voltando pra trás do balcão quando o Oscar entra trazendo uma pilha de disquinhos. “Olha isso aqui que eu acho que te interessa”: Paulinho Moska, Zeca Baleiro, Ana Carolina, Detonautas... parei. Esse Oscar acha que eu sou otário, já não gosto de CD, ainda mais essas merdas.

Quando vai chegando à hora de ir embora, o Gordo sempre quer beber uma comigo, eu sempre o dispenso sutilmente (eu acho). Nada de discussões sobre a relevante obra do Xangai, esse tempo já passou pra mim. Deixo a luz da vitrine acessa como sempre e ligo o alarme. Todo dia olho a vitrine e acho que devia mudar algum disco.
Beatles, Roberto Carlos, Elvis, Miles Davis, Clash, Buddy Guy, Frank Zappa, Roxy Music, Rolling Stones, Tom Jobim, Sepultura, Billie Holiday, Dead Kennedys, Stevie Wonder, mais uns escondidos no fundo.

Qualquer dia desses tenho que mudar essa vitrine

*Qualquer semelhança com fatos, pessoas, locais e gostos musicais é mera coincidência. Recomendamos a velocidade 33 rpm para a audição dessa estória.


Pierre Masato é um boêmio safra 70. Participou da coletânea de contos Brother Cactus e mantém no ar o blog Speakeasies Jukebox desde 2005. Acredita que o samba de Cartola e Noel Rosa está em conexão direta com o blues de Son House e Howlin Wolf.