Na Calada da Noite

A noite da cidade é uma Velha Senhora/uma puta aposentada, cansada/triste e menosprezada

A qualquer hora você pode encontrar com ele numa esquina. Vivendo de pequenos expedientes, circulando sem cerimônia pelas diversas camadas da metrópole. Pode estar de manhã nos Jardins entre bacanas endinheirados aplicando sua lábia. Solicito prestador de serviços, sempre disponível para resolver problemas que a maioria dos mortais sequer imagina como se safar. 

A noite da cidade sempre me acolheu/desde a mais tenra idade, me deu/de comer e beber, me deu identidade

Na periferia o empreendedor é conhecido como homem generoso, que distribui agrados aos seus acólitos. No entanto, indiscrições e deslealdades são reprimidas com a severidade de um pai disciplinador. Cada baixa é recebida com um cerimonioso silêncio. Nas ruas muitos olhos atentos, muitos dentes trincados. Nas casas muitas senhoras enlutadas, muitos irmãos ressentidos. Na Birosca do Irineu é certeza encontrar com o malaco, saboreando uma das pingas com insetos gigantes expostas em vidros nas prateleiras; traçando uma codorninha frita na hora, jogando um snooker a dinheiro. O sorriso permanente é o cartão de visitas para aqueles que o procuram a negócios.

A noite da cidade diz que não me ama/zomba do meu caminhar solitário/do meu cigarro apagado

Porém, como nem tudo são rosas nesse mundo, algumas pessoas não simpatizam com as atividades do rapaz. Espreitam suas ações, aguardando ansiosos o momento de efetuar um ajuste de contas. Clientes achacados, temerosos pela possibilidade da revelação de suas ligações, resolvem se unir em busca de uma solução comum que seja rápida e indolor. Na mesma área onde reside o problema, encontram a solução.

A noite da cidade não sabe de nada/mas eu me apaixonei, amo a sua mordacidade/sonho com suas ruas, janelas e bares

Noite quente na Birosca do Irineu lotada de pessoas oleosas, sorvendo com sofreguidão brejas e acepipes. A música alta da jukebox não permite conversas que não sejam pontuadas por gritos. De costas pra rua, conversando descontraído, o Sr. Sorriso não percebe a rápida aproximação do seu algoz. Onze estocadas nas costas depois, o corpo se estatela na calçada, onde uma poça rubra logo se avoluma. Logo uma multidão silenciosa emerge das ruas, arrasta para o meio da rua a carcaça do que restou do outrora bem sucedido matador. O cheiro de gasolina vicia o ar, em questão de minutos o acre aroma de carne humana não permitirá que à noite da cidade ignore o destino dos pequenos tiranos do dia-a-dia.


Pierre Masato é um boêmio safra 70. Participou da coletânea de contos Brother Cactus e mantém no ar o blog Speakeasies Jukebox desde 2005. Acredita que o samba de Cartola e Noel Rosa está em conexão direta com o blues de Son House e Howlin Wolf.