Fim de Expediente

Aos poucos todos foram embora e a ronda começou: verificar as janelas, as portas, a temperatura do refrigerador, a porta do cofre, apagar as luzes e acionar o alarme. Enfim, abaixar e travar a porta de ferro. Quando tinha terminado, sentiu um tesão de mijar fudido. Pensou no trabalho de desfazer tudo e decidiu por se aliviar ali mesmo, no passeio público. Quando estava acabando ouviu uma sirene aumentar o volume as suas costas e em questão de segundos os meganhas estavam lhe abordando:

- Cidadão! Aqui não é lugar de você fazer isso.
- Tudo bem rapaz, o estabelecimento aqui é meu. Percebeu após sua resposta os risinhos abafados.
- Ah é? Mas, como é que fica se enquanto você está fazendo isso, uma mulher passar por aqui...
- Só se for a sua, a minha essa hora está em casa dormindo!

Os colegas da viatura seguraram o soldado que queria briga, mas todos pensaram que um cara para dizer aquilo, devia ser/ter alguma eminência parda.

Ele foi saindo, com um meio sorriso e o charuto no canto da boca. No silêncio da madrugada era possível ouvir apenas um cantarolar imitando um solo de guitarra, um blues albino.


Pierre Masato é um boêmio safra 70. Participou da coletânea de contos Brother Cactus e mantém no ar o blog Speakeasies Jukebox desde 2005. Acredita que o samba de Cartola e Noel Rosa está em conexão direta com o blues de Son House e Howlin Wolf.