NAUFRÁGIO

– Acorda, Tonho barbudo,
Que o porre foi federal
E mesmo assim, nesse estado,
Você tem que bater ponto
Na biblioteca municipal.

– Sai pra lá, bicho pernudo,
Estou abstêmio, cacete,
Mas ainda não a ponto
De ver caranguejo em tapete,
De confundir céu e chão.
(Será que briguei com a nega?
Ai ai ai... Que eu saiba, não.)


No princípio foi a onda gigantesca, o resvalar da morte, agonia sem glória.
            Depois, quando já se conformava com o fim, o alívio: terra à vista, terra ao alcance dos pés, a ilha. Por arrecifes caminhou sobre as águas, transpondo numa eternidade a distância que o separava da praia.
            Fez-se tarde e noite. Foi o primeiro dia.
            Acordou com o fogo inclemente do sol que se espelhava no paredão rochoso, cegando de relance os olhos que ali se atrevessem mirar.
            Louco de dor, chorou mares e caiu por terra, braços e pernas abertos, como uma estrela ou um novo crucifixo. Muito depois abriu os olhos para o céu escancarado em azuis e separou suas águas, lágrimas, das águas outras do mar.
            Fez-se tarde e noitinha.
            A maré grande o assaltou enquanto dormia.
            – Maré cheia, preamar seis e meia – resmungou, atarantado de sono, enquanto corria para a terra mais firme. Pisou a areia com força, ensaiou um desafio para as águas que ali não podiam alcançá-lo, riu, deixou-se cair sobre o lençol de folhagens rasteiras e a noite o cobriu de vez.
            Na breve morte, o sono, recebeu indiferente a luz da primeira estrela.
            Acordou com a folia de pássaros que baixavam da falésia à praia, colhendo frutos deixados pela maré. Divisou nas águas transparentes um cardume fazendo evoluções e pensou que faltava alguém, talvez o primeiro homem na Terra, para presidir aquele quadro.
            Afogou a imagem num mergulho, voltou à praia, fez um gesto como se consultasse um relógio, sentou-se num velho tronco adornado de conchas, adornado de Tempo.
            Deteve os pensamentos. Buscou outras sintonias. Deixou-se estar.
            Espera, acalanto de milagres, miragem de cores se alongando no horizonte.
            Cadê o Tempo, que não vinha?
            Temeu enlouquecer, quis reagir, xingou em linguagem de prece, desfiou um rosário de maldições, sentiu-se o rei dos desgraçados. Inaceitou ao máximo a sorte que ali o lançava.
            Fez-se tarde e noite.
            A manhã seguinte o encontrou diferente. O horror, transcendido, conjurava outros despertares.
            Acordou querendo o novo, a coragem maior da rendição.
            Teria?
            Cedeu, relutante, ainda conjeturando amargamente a perda. Esperou pelo fel, pelo horror maior... Que não veio. Não veio no instante seguinte, nem em todo o santo dia seguinte.
            Surpreso, pressentiu uma infinitude nunca dantes navegada.
            Jogou fora a tabuinha onde marcava os dias, a vaga esperança de retorno.
            Acontecia, enfim, o que tanto temera: perdia as referências.
            Em vez de livre, estava vencido.
            Julgou que morria de novo e que esse novo não teria volta.
            Então, desde o fim veio outro princípio e, nesse princípio, um verbo.
            Criou um céu e uma terra, ordenou as trevas como contraponto da luz, jogou com dualidades, noite-dia, brilho-escuridão, firmamento e solo de ervas e bichos, águas povoadas de peixes e répteis, ares povoados de pássaros; um sol, uma lua, um cortejo de estrelas.
            E viu que tudo isso era bom. E quase morreu de rir, antes de uma nova onda de choro. Estava se acostumando a vagar entre os extremos, a romper ou afrontar distâncias, subvertendo contrários e tangências.
            No sétimo dia, como descanso, bebeu um resto de aguardente. Por conta do fogo, poesia ou graça, tomou nas mãos um punhado de areia, encharcou-a, forjando o barro do paraíso. E assim como quem não quer nada, ou tudo, esculpiu um caranguejo a quem batizou de Adão.
            Fez-se tarde e noite e manhã.
            Com Adão, às vezes arriscava um repente, meio que disfarçando uma prece:
            – Adão, tenha dó ou gratidão, não deixe que a solidão ponha esta alma pra dormir.
            Nessas horas, para distraí-lo, Adão movia-se como um pêndulo, executando uma curiosa pantomima enquanto exibia o desenho, garatujas que trazia na carapaça.
Invocado como qualquer bêbedo que se preze, ele resmungava:
            – Eu escrevi isso? Não me lembro...
            E então pensava que talvez existissem outros náufragos, outros deuses, por aí.


Yara Camillo nasceu em São Paulo, Capital, a 7 de outubro de 1957.
Formada em Comunicações pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP –, com especialização em Cinema.
Autora de Volições, publicado por Massao Ohno Editor, em 2007, e Hiatos, publicado por RG-Editores em 2004. Ambas as obras são ilustradas por Wilson Neves. Em sua trajetória, trabalhos para Teatro, traduções, participação em antologias, além de vários contos premiados.
Contato: ymcamillo@uol.com.br