Traduttore-Traditore

Há certas horas em que me pergunto se vale a pena interromper uma tradução para conversar com meu vizinho Fred. Afinal, já que estou desperdiçando meu questionável talento, por que não fazê-lo apenas com a editora Young Fire – The best love stories?

A promoção chegou, senhores. Dois anos de copidesque – prêmio caneta dourada no último Natal – me elevaram aos olhos do editor e à não menos dourada chance de exercitar meu Inglês, tanto que agora esbracejo entre Michaelis e Collins, sentado literalmente sobre o Aurelião.

Vulnerável à maturidade, já não me enfureço diante do absurdo que os autores da Young Fire – ainda não consegui chamá-los escritores e bem que venho tentando – continuam a praticar com seus heróis e vilões.

Realmente, não me surpreendem mais. E não confundam minha posição com ceticismo. Não. É que os quesitos básicos de qualquer romance barato, bem como certos preconceitos e discriminações que antes me provocavam choro e ranger de dentes, acabaram se diluindo diante de outros sábios recursos adotados pelos autores, que em esperta evolução passaram a abordar assuntos de interesse mundial, senhores, tais como guerra bacteriológica, narcotráfico e outros tráficos mais, entre tópicos que fazem a alegria da mídia. Em resumo, violência mesclada a sexolândia e overdoses de estupidez.

Não quero abusar da minha, da sua, da vossa paciência, mas os senhores haverão de convir que heroínas que falam como donzelas do tempo das diligências e agem como putas neoliberais realmente frustram a expectativa das pobres leitorinhas, que vão buscar lã e saem tosquiadas. É como dar gororoba a quem tem fome: a coisa enche as tripas mas não supre a alma.

Comentei esse assunto com o atual editor da Young e ele me respondeu, sem nem mesmo enrubescer, que já é tempo das leitorinhas pararem de se preocupar com o próprio umbigo para pensar um pouco nos problemas que afligem o mundo; que afinal os escritores (foi ele quem disse) da Young vêm optando por temas mais abrangentes et cétera et cétera. E aproveitou o ensejo para me dar uma comida de rabo: “Em resumo, Castro, deixe de frescura e faça o seu trabalho.”

Faço: desde que comecei na Young, como um humilde copidesque, eu gostava de subverter, sempre que aparecia uma chance. Não era tão difícil e ainda me dava um certo prazer, sensação de romper o cerco ou ao menos de não vender a alma à vista e com desconto. Na verdade, minha subversão consistia em boicotar premissas. E, com o passar dos anos, fui aprimorando a técnica. Explico: se o vilão da estória era um estrangeiro, por exemplo (e sempre era, senhores), eu o transformava num caráter filho da puta, para que as leitorinhas compreendessem que seus atos carregados de maldade não seriam uma questão de etnia e sim de ética, ou já da falta dela. Assim, eu tirava ou pensava tirar as varejeiras da merda que os romances ofereciam. Com isso me sentia menos aviltante e, de trivela, menos aviltado.

Dois anos se passaram. E dois anos, do jeito como andam as coisas hoje em dia, é muito tempo. Meu primeiro editor enforcou-se no chuveiro, e a secretária, ainda de cabelos molhados quando a polícia chegou, foi gastar o fundo de garantia nos Alpes ou nos Andes, não entendi muito bem quando me contaram, de qualquer modo a essa hora a moça está nas alturas.

         Quanto a mim, estou no limite. E, se os senhores me derem licença, vou fazer um pit-stop na tradução e tomar umas no Boteco do Tulípio.           



[O texto acima faz parte do conto Copidesque Ainda, do livro Volições (Massao Ohno Editor, 2007, com Ilustrações de Wilson Neves e Fotos de Marjorie Sonnenschein]

Yara Camillo nasceu em São Paulo, Capital, a 7 de outubro de 1957.
Formada em Comunicações pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP –, com especialização em Cinema.
Autora de Volições, publicado por Massao Ohno Editor, em 2007, e Hiatos, publicado por RG-Editores em 2004. Ambas as obras são ilustradas por Wilson Neves. Em sua trajetória, trabalhos para Teatro, traduções, participação em antologias, além de vários contos premiados.
Contato: ymcamillo@uol.com.br