ASSIM FALOU BARATUSTRA

Baratustra foi um personagem marcante. Quem viu, não esqueceu.
Mas ninguém dava nada por ele, nas primeiras leituras da peça “Cortázar Assim”, montada na Biblioteca Monteiro Lobato, na época das Diretas Já... Até que Wladi fez uma interpretação que nos deixou, para usar uma expressão da época, deliciosamente baratinados.
Baratustra era, ainda é – no Teatro, tudo é presente – uma barata de meia-idade, já cascuda, que acaba entrando na casa de dois jovens cartunistas, Mauro e Agnes.
Encurralado, na iminência do fim, Baratustra apela para a retórica, tentando convencer seus hostis anfitriões a deixá-lo vivo.
Pego de surpresa, Mauro espera a seqüência do discurso, de vassoura em punho.
Com a sabedoria que todos adquirimos quando a água sobe ou a vassoura desce, Baratustra continua argumentando. Sua veemência resulta de uma recente incursão pelo lixo da casa, onde devorou uma tirinha de papel de seda,um resto de incenso e uns farelos de cocada. Tudo isso ao som de uma balada que só ele ouve, quando entra nessas viagens.
Mauro e Agnes estão perplexos. Ela, em pé, numa banqueta, cujas três pernas firmes mal encobrem a falha da quarta, que bambeia perigosamente. Ele, empunhando a vassoura como um rifle, enquanto Baratustra pede:
– Tenha piedade.
Mauro toma fôlego, mas acaba atirando a vassoura para Agnes:
– Mata você, vai.
– Nem pensar. – Ela joga a vassoura de volta.
– Por que eu? – Mauro arremessa a vassoura com mais força.
– Por que não? – Agnes devolve, no mesmo tom.
Cada vez que a vassoura o sobrevoa, Baratustra se contorce de horror.
– Humaninhos, qual o problema de vocês comigo?
– Qual o nosso problema com esse bicho, Agnes? – diz Mauro, inesperadamente.
– Ele é horripilante... Eu acho.
O fato é que a vítima, de perninhas para o ar, começa a conquistar o carrasco:
– O que é a aparência, senão uma ilusão dos sentidos? Se eu fosse um gato, aposto que vocês me deixariam viver, até morar, aqui. Mas como sou apenas um ortóptero...
– Ortóptero?
– Da família dos blatídeos – Baratustra esclarece, antes de voltar à carga: – E por que tanta discriminação? Justo da parte de vocês, que me parecem tão de vanguarda, a começar pelo lixo, e olhem que aquele incenso tiene algo de piantao y que sé yo.
Conversa vai, conversa vai... Pois é unilateral. Só Baratustra fala, parando vez por outra para fungar as quase invisíveis migalhas de cocada que ainda restam numa perninha.
Agnes salta da banqueta para o chão, certa de que Baratustra tem tanto direito à vida quanto qualquer outro ser:
– Deixemos que esse pobre coleóptero se vá...
– Ortóptero.
– Isso.
Mauro quase encosta a vassoura em Baratustra, exibindo sua melhor performance de vilão:
– Tudo bem, você pode ir. Mas com uma condição.
– Aceito todas. – Baratustra se agarra às fibras de piaçava e, com intenso esforço, executando uma delicada manobra, consegue se virar. Tenta fugir, mas Mauro o detém, pressionando-o levemente contra o piso. É quando Baratustra joga a última cartada: – Já chega de crueldade... Mate-me, se quiser, ou deixe-me passar.
– Eu ainda não falei sobre a promessa.
– Não era uma condição? – diz Agnes, lançando ao amigo um olhar que avisa: Desço a vassoura em você, se continuar com essa tortura.
Ignorando a ameaça, Mauro leva a cena adiante:
– Baratustra, você promete que sairá por baixo daquela porta...
– Prometo.
– E nunca mais (pausa de efeito)... Nunca mais voltará?
– Juro. Pela sua mãe. Vou sair voando daqui, assim que puder.
– Essa barata é muito louca – Agnes conclui, solenemente.
– Ai, Agnes de Deus, juro que não volto, nem mesmo se vocês queimarem aquele incenso, de novo. Nem mesmo se vocês dispensarem um quilo de cocada branca, a que eu mais adoro.
– Combinado. Agora, vá.
Mauro afrouxa a pressão da piaçava. Baratustra dispara em direção à porta, passa por baixo e, então, ouve-se um grito.
A porta se abre, entra em cena a prima Esperança, que há séculos é hóspede da casa... Daqueles que chegam para ficar três dias e acabam se arranchando.
Lívida, a Esperança retira da sola do sapato o corpo de Baratustra, que grudou bem perto do salto, ao ser esmagado. Segurando-o pela única antena que resta, anuncia o óbvio:
– Acabo de pisar numa barata. Que susto!
Agnes não quer olhar.
Mauro, abraçado à vassoura, é a própria imagem da desolação.
– Por que essa tristeza? – pergunta a Esperança. – A barata era sua, Maurito?

Ficamos três meses em cartaz. Depois do último espetáculo, fomos tomar umas num boteco próximo à Biblioteca. Era verão e, eventualmente, alguns parentes de Baratustra cruzavam o chão de ladrilhos. Wladi não permitia nenhum atentado contra os cascudos transeuntes. (Não permite até hoje.) E quando alguém perguntou por que (mas isso foi lá pelas tantas), Wladi mandou um discurso bem no estilo de Baratustra:
– Vocês não imaginam o que eu sentia naquela cena, cada vez que a vassoura passava, voando, por cima de mim. E essa estória de negociar com a morte... Mesmo com tanta boa vontade, parece que não há rota de fuga; sempre há o risco de se trombar com alguém que inocentemente esmaga o que só queria voar.
Era hora de mudar de assunto, porque o Wladi já estava entrando naquela melancolia que bem conhecíamos. Já estava ficando de perninhas para o ar, o nosso Baratustra.


Yara Camillo nasceu em São Paulo, Capital, a 7 de outubro de 1957.
Formada em Comunicações pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP –, com especialização em Cinema.
Autora de Volições, publicado por Massao Ohno Editor, em 2007, e Hiatos, publicado por RG-Editores em 2004. Ambas as obras são ilustradas por Wilson Neves. Em sua trajetória, trabalhos para Teatro, traduções, participação em antologias, além de vários contos premiados.
Contato: ymcamillo@uol.com.br