Sábado à noite

Mais uma noite de sábado. O Poeta pensa na música do "eterno jovem" Lulu Santos. Pensa enquanto separa seus livros, editados de forma independente, para levá-los ao bar. Mais um dia de trabalho... "todo mundo espera alguma coisa..."
"todo mundo pensa em ter uma vida boa...". Porque Lulu Santos o atacava agora?
E lá ia o Poeta no bairro descolado da cidade. Quantos bares por metro quadrado? Tanto fazia. Era seu ganha pão emocional que iria oferecer. Mais uma final de semana. "Quantos finais de semana nos bares do bairro descolado em seus 35 anos de vida?", perguntava o Poeta. Melhor não lembrar. "bem no fundo todo mundo quer voar..."

Um bar, bar dois, terceiro e quarto. "Indiferença, transparência, desaparecimento? Como chamar a atenção dessa gente?", perguntava o poeta a si mesmo. Gente fina, cheirosa, intelectuais, profissionais liberais. "Estão embrutecidos, não querem nem ver os poemas..." pensou o Poeta.

Quinto bar. O Poeta entra decidido. Dessa vez não olha nos olhos das moças, não faz cara de muxoxo, não brinca com os rapazes, não trata com cortesia os donos, garçons, a clientela mais velha. Sobe numa mesa. Garrafas de uma bebida importada (onde estarão as velhas cervejas que alimentavam nossa febre de mudanças?, pensa o Poeta), conversas de viagens, amenidades, comentários sobre filmes (ah, isso continua como sempre!) e nada de cinzeiros (não se fuma mais! Justifica o Poeta).

O Poeta dá um grito em cima da mesa. Alguns clientes olham, outros mantém a conversa, pois não agüentam mais essas cenas de artistas alternativos. O Poeta saca a estilete. Estilete que cortou tantos papéis. Estilete que acertou tantos livros "editados de forma independente". Estilete já conhecia a carne de papel do Poeta, porque não conhecer sua carne feita de sangue, músculos e muitas ilusões? E foi assim que o Poeta cortou os pulsos de forma rápida. O sangue jorrando aos borbotões, sujando os guardanapos alvos, turvando os copos, as taças de um vermelho quente. Os garçons atordoados, os clientes tentando se limpar de forma educada e contida. Todos pensando: "mas porque fazer isso logo num sábado?"

O sangue do poeta bate no teto, mancha as paredes, inunda o chão. Finalmente seu corpo estrebucha na mesa, rola e cai no piso. Os garçons correm com vassouras e pás. Os donos lamentam em voz alta e pedem desculpa pelo incidente, "não devemos nos aborrecer, nada de estresse. Uma rodada por conta da casa!". O Publicitário ao ouvir o oferecimento da rodada gratuita de bebida em razão do inconveniente criado pelo Poeta, grita excitado, a plenos pulmões e criação: "Menos um poeta no planeta, mais bebidas nas mesas!"

Slogan criado, todos se limpam do sangue, esquecem a desagradável manifestação e continuam na alegria do sábado á noite...

 


Thereza Dantas é tudo, menos aquilo.