Bares são sempre bares

Bares são para sempre bares. A frase já nasce meio piegas, mas na vida de Oswaldo e Jair, isso não é falso.
A mesa de ferro de esmalte branco com cadeiras de igual pintura não enganam o tipo de bar que Oswaldo e Jair freqüentam há anos: o famoso pé sujo. De lá os amigos analisam os freqüentadores e a movimentação da rua.
“Já sabes que amei Veridiana?”
“Vais contar novamente essa história?”
“Mas não é por causa dela que estamos aqui?”
“Exatamente por esse motivo gostaria que você, meu querido e eterno amigo, esquecesse... Essa sua aventura romântica nos custou caro.”
No balcão, o velho Juca limpa mais uma vez o alumínio um tanto engordurado e histórico do bar. São oitenta e três anos de funcionamento na “melhor esquina da zona norte paulista”. O adjetivo é do Juca, que há cinco anos tenta se desvencilhar do “bar na melhor esquina da zona norte” para comprar um sítio em Ibiúna. O motivo: o cansaço que tem rendido visões e alguns ruídos a mais na vida de Juca. “Eu não sei mais o que fazer...” fala ele com os olhos assustados, um pouco inchados de cerveja com valium. Os ruídos surgiram há cerca de dez anos, um ano após o crime que deixou marcas profundas na história do bar: marido traído entrou atirando e acertou dois amigos que num canto do salão tomavam a merecida cerveja antes de voltarem para casa. Morreram os dois. Na hora. O marido fugiu, ninguém mais da zona norte soube dele. A morena Veridiana chorou a ausência dos dois, do marido e do amante assassinado, Oswaldo. O Jair entrou de gaiato na história e junto de Oswaldo ficam assombrados e assombrando o bar “da melhor esquina da zona norte paulista.”


Thereza Dantas é tudo, menos aquilo.