Uma cerveja

A polícia chega ao shopping center em menos de 10 minutos. Os seguranças isolaram o local onde dois corpos jazem. Sangue vermelho no piso frio branco. Um homem imobilizado no chão por um dos seguranças, grita que foi ofendido. De longe, não se percebe a diferença de cores, gênero e classe social no sangue do homem e de uma mulher. Olhando assim, percebe-se que somos todos iguais na morte.

“Dia de trabalho, Dr. Delegado. Um chefe babando no meu cangote, dois amigos nerds que enchem minha caixa de e-mails com links geek (eles juram que tem vida além dos links), minha mãe pedindo grana e uma pilha de papéis correspondente a pelo menos meia dúzia de trocos de árvores. Então Dr. Delegado, um dia difícil e o meu erro foi sonhar com a cervejinha gelada no final do expediente com a nova ficante.  Quase o paraíso...

Ela topou a cervejinha. Combinamos nos encontrar num bar novo, recém inaugurado no shopping perto do nosso trabalho. Ás 20hs estava lá. Minha deusa chegou Dr. Delegado, e sentamos na mesa fora do bar. Pedi a cerveja ao garçom que respondeu que devia escolher qualquer uma do cardápio. Olhei e me assustei! Tinha pelo menos três dezenas de cervejas. Comecei a sentir saudades do tempo do onça que não vivi, da cerveja nacional, da restrição às importações de mercadorias, do dois mais dois igual a quatro...

Mas não demonstrei fraqueza Dr. Delegado! Tinha a rainha para impressionar. Perguntei ao garçom sobre as cervejas que não conseguia soletrar o nome. Ele, no começo educado, sabia o nome em alemão de todas. Explicou que uma tinha forte sabor de lúpulo e a outra deveria ser bebida em copo muito longo. Uma outra marca é austríaca e a irlandesa tem forte teor alcoólico. Um pouco desgostoso pedi a de nome feminino. Ele corrigiu meu francês e disse que a cerveja belga deve ser bebida na temperatura ambiente. Olhei pra ele, olhei pra minha deusa... Lembrei do meu chefe, da minha mãe, dos meus fracassos escolares. Lembrei que fiz xixi e matei a planta de minha avó e que carrego essa culpa até hoje.

Um pouco impaciente passei a exigir a cerveja de nome de mulher gelada porque é assim que a quero beber. O rapaz, um tanto cínico, um tanto provocador, disse que era melhor então eu ficar na cervejinha nacional. Senti os olhos ficarem vermelhos. Na mesa ao lado vi o casco de uma cerveja vazio. Peguei e descobri que era casco nacional e quando bati na mesa, ela quebrou com várias pontas. A partir daí, não lembro de mais nada, Dr. Delegado”


Thereza Dantas é tudo, menos aquilo.