COSMONAUTA DE CORAÇÃO PARTIDO - Por Sérgio Medeiros

Este livro do poeta Douglas Diegues tem um impagável herói épico: um “astronautita selbagem”, urbano e indígena. Ele flutua cada vez mais alto, depois de beber alguma poção mágica. Temos aí todos os ingredientes clássicos da épica e da fábula. Por isso, este poema longo, escrito num saboroso macarrônico que mescla o espanhol com o guarani e o português, línguas faladas na “Triplefrontera”, fonte da poesia de Diegues, é ao mesmo tempo muito antigo e muito atual. O macarrônico heróico renova a épica latino-americana, graças à sua fulgurante “raiva da expressão” (la rage de l’expression, locução de Francis Ponge, mestre que produziu textos inacabados e variantes infinitas) e à sua visão de mundo inusitada, que revê valores de uma perspectiva “bêbada” e “elevada”, situando a consciência hispano-tupi-luso-afro-guarango-americana nas altas selvas do céu. 
Quando li esse texto, lembrei-me logo de uma instalação do artista russo-ucraniano Ilya Kabakov, intitulada “O homem que voou ao espaço do seu apartamento” (The man who flew into space from his apartment), dos anos 1980-90. Nessa instalação de Kabakov, uma farsa trágica, deparamos com um fato real, inequívoco: alguém voou, lançou-se no espaço e desapareceu. A obra consiste num quarto esquálido de teto arrombado, cujas paredes estão cobertas de cartazes soviéticos, executados segundo a estética oficial da ditadura comunista. Tocado pelo êxtase coletivo, o homem voou para fora de uma era particularmente alucinada da história da humanidade e ganhou, aparentemente para sempre, os céus. (A obra de Kabakov é uma crítica mordaz ao totalitarismo.)
O astronauta paraguaio é tão solitário quanto o astronauta russo-ucraniano e, como este, flutua efetivamente no espaço sideral, disso não se pode duvidar. Temos uma prova material que atesta a veracidade dessa façanha épica. No caso do astronauta de Douglas Diegues, a prova material é a língua, a fala macarrônica na qual todo o texto está vazado. Lendo o epos macarrônico, percebemos que o herói está acima das nacionalidades e flutua livremente sobre o mapa lingüístico da América do Sul, expressando-se numa língua híbrida, que desconsidera divisões políticas e culturais, embaralhando fronteiras ou tornando-as incrivelmente porosas. Não existe mais uma fronteira linear, homogênea, mas muitas fronteiras quebradas, confusas, ineficazes.
É um poema lúcido e delirante sobre o amor e a perda, o poder e a exploração, por isso mesmo pode ser definido como uma subida ao céu que é também uma descida ao inferno. O discurso circular desse astronauta que se rejubila e sofre, critica e sonha, poderia redundar numa armadilha alienante, mas isso não acontece. À medida que a nossa leitura evolui, percebemos que o tom do poema se ameniza, a raiva (a paixão) fica mais lírica, os fragmentos mais breves, o astronauta amadurece e reavalia a própria situação, descendo enfim à Terra e pondo os pés leves (extremamente leves) na “Triplefrontera”.
Douglas Diegues cita como suas referências o escritor paraguaio Roa Bastos e o poeta brasileiro Manoel de Barros, homenageando ambos no poema. Eu gostaria de acrescentar Sousândrade, o genial poeta brasileiro do século XIX que, no seu poema épico O Guesa, utiliza também a mescla de línguas para falar da aventura de um nativo da América do Sul no coração da Bolsa de Valores de Nova York. Esse índio do século XIX, que passeia com leveza de astronauta por Wall Street e critica severamente os valores do sistema capitalista, poderia ser, imagino, um legítimo precursor do astronauta selvagem do brasiguaio Douglas Diegues.

Ilha de Santa Catarina, 2007 

ASTRONAUTAS MOVIDOS A AMOR HOVY

Todos em Paraguay y en el resto de este mundo son astronautas. Todos puedem volar hermosamente. Pero nim todos se dan cuenta.  Creem que non puedem volar. Non sabem que puedem volar. Um dia el Astronauta Paraguayo pillou el secreto que estaba dentro di seu korazonzito. Y saliu volando como um índio maká-ashluslay-guaraní-sanapaná. Y volveu a Paraguay. Y dijo que sim que todos puedem volar. Y que el secreto non era turbina nim gazolina. El secreto era apenas Amor Hovy.

El Astronauta Domador de Yakarés

[Prólogos al libro EL ASTRONAUTA PARAGUAYO, de Douglas Diegues, a salir por JAKEMBÓ EDITORES ainda em 2007]
 

EL ASTRONAUTA PARAGUAYO OJERÁ VOLANDO EM SILENZIO POR EL OSCURO AZUL DE LA INFINITA BELLEZA DEL TATÚ RO’Ô DE LA VIDA

8, 4, 2, zero y zás!
¡Qué lindo flutuo!
¡Qué lindo flutua
el primeiro Astronauta Paraguayo!

La Belleza de las Selvas del Tatú Ro´o de la Vida con sus millones di Estrellas que existem y nom existem parece una disko en Asunción llena de brillos truchos luces negras y primitibo neón

Non estoy aqui por plata

Nim para servir di kobaia

Decidi ser Astronauta para esquecer la Yiyi de minisaia que mesclava xocolate kaliente y sangre menstruada

!Y qué lindíssimamente lo lamías!
¡Y qué enamoradamente lo mamábas!
¡Y qué porongueantemente biém
el astronautita te porongueaba!

Y flanando por la inguerobiábel Belleza de las Selvas del Tatú Ro’ô de la Vida onda iluzión sem iluziones entre Burakos Negros y Estrellas Kalientes siento um olor a Xocolate Xonxa Yaguatirika siento um olor a Néctar di Yégua siento um olor a Mel de Yiyi infernalmente rosaxoki

“¡Y es uma Estrella Vagaba que le caga!”
“¡Y es uma Estrella Vagaba que le caga en la leche!”

Hermoso es flotar por la Belleza del Infinito Tatu Ro´ô de la Vida como um índio maká ensaboado bailando cumbia entre Enanas Verdes y Enanas Rúbias

Pero es mucho mais que hermoso volar por la disko María Delírio bailando cumbia com la Yiyi del rosaxoki delirante

¡Y es uma Estrella Pipinga que le mija!
¡Y es uma Estrella Pipinga que le mija en el korazón!

Non se brinca con Néctar de Navaha

Non se brinca con Miel di Abismo

!Y qué lindo era porongueárte
ritmo dulze violênzia
bajo a la luz de la Luna llena
kolor Amor Hovy!

Pero non seas boludo non existem mais hombres-pájaros-makás-enjabonados

La Belleza de las Selvas del Tatu Ro´ô de la Vida non es la disko Maria Delírio nim la disko El Gran Kaimán nim el balneário El Rey Lagarto

Las Enanas Rúbias y las Enanas Verdes son Estrellas famozas y sorridentes pero non tienem nim una gotita del rosaxoki caliente

Soy el Astronauta Paraguayo que vuela muerto de bessos enbenenados

¿Romântiko dildo kobaia?

¡Y es uma Estrella Pelotuda que le rompe el kulo!
¡Y es uma Estrella Pelotuda que le rompe el kulo
y le deja mais macho!

[Poema inédito del libro EL ASTRONAUTA PARAGUAYO, de Douglas Diegues, a ser publicado ainda em 2007 por JAKEMBÓ EDITORES - www.jakembo.blogspot.com]


Douglas Diegues é autor de Dá Gusto Andar Desnudo Por Estas Selvas (Travessa dos Editores, 2003, Curitiba, PR) e Uma Flor Na Solapa Da Miséria (Eloísa Cartonera, Buenos Aires, 2005)

O poema acima faz parte do livro inédito Rocío, que será lançado dia 01 de Julho em Assunción.

Leia Mais textos do Douglas