Engradados

Gil foi até o depósito pegar mais cerveja, entrou um grupo de escritores pra comemorar o prêmio que um deles recebeu. Muita grana. Dava pra comprar um carro popular. Dava pra fazer bem feitinho três cômodos pra cunhada que chegou de Urubu. Dava pra pagar a cirurgia da boca e trocar os dentes sem cálcio por porcelana de primeira.

Gil ouvia a conversa daquele povo e sentia-se inferior. Fazia o que qualquer outro corpo pode: carregar caixas, abrir garrafas, botar o lixo na rua. Mas gargalhar como aquela mocinha de vestido florido, nunca. Abrir a boca daquele jeito depende da abertura dos ombros, da envergadura do esqueleto, do cálcio na boca.

Conhecia os livros de cada um de tão alto que falavam deles, sempre os últimos a saírem. Quando lançavam obra ali, às vezes ganhava um exemplar. Lia e relia.

Gil não encontrava as garrafas que estavam debaixo do nariz. Pegou pilhas de anotações guardadas num balde que um dia foi de maionese. Amarradas por barbante, lembravam processos judiciais. Sujeito subiu com aquilo na bandeja no lugar das cervejas e foi até a mesa dos ilustres.

— Me fariam um favor?

A mesa aquietou-se.

— O que é, Gil?
— Queria que um de vocês fizesse um livro disso aqui pra mim, guardo há anos.

Uma escritora acendeu a cigarrilha, outro atendeu o celular, um cronista foi ao banheiro.

— Está pronto. Só colocar meu nome: Gil.

— Qual seu estilo? — debochou o poeta.
— O senhor diz o que está escrito? Tem assim: "três cervejas e dois bolinhos", "quatro Coca-Colas e um prato de amendoim", "um Free e caixa de fósforos",  de tudo um pouco.

A mesa ao lado solicitou o garçom, ele foi atender. Os escritores cogitaram trocar de bar, cadê a porra da cerveja? Um dos escribas, depois de rápida análise dos originais, chamou o rapaz de volta.

— Gil, esquece.
— Por que?
— Ora, isso não é literatura!
— Mas literatura não é um monte de palavras que vocês tiram da boca da gente, botam lá e pronto?

O cronista perdeu a paciência.

— A cerveja, caralho!

— Esse aí pode ser o título: ‘A cerveja, caralho!’.


Andréa Del Fuego é autora dos livros: Engano seu, Nego Tudo e Minto Enquanto Posso

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