Jabaquara-Tucuruvi

— Você não tem cara de mulher casada.
— Não? Tenho de quê?
— Tem cara de quem, se por acaso aparecer um aí, se tiver vontade, deixa rolar.
— Você fala isso porque brinco assim com o Darlei? Vou lá todo dia no xerox porque ele é bonzinho.
— Olha a tua bolsa, você ia esquecer.

Estação Saúde, desembarque pelo lado direito do trem.

— Eles me deram só a última.
— Até agora eu não vi o meu. O Adaílton caiu da moto na marginal, pino na perna, gesso na costela, antes vinha um dinheiro do serviço dele, agora…
— Vai na igreja da Vila Carrão, lá perto da tua sogra.
— Não agüento mais pastor, Adelice, casar com um deve ser bom, mas ouvir de graça…
— Ó, chegou a tua.

Estação Praça da Árvore, desembarque pelo lado direito do trem.

— Repete.
— Ah! Sei lá, você falou primeiro.
— Fala de novo.
— Você é lindo.
— Linda.

Estação Santa Cruz, desembarque pelo lado direito do trem.

— Diz que a Alessandra Negrini está enorme.
— Você viu o cara? Diz que é cantor, eu nunca vi.
— Eu vi, um loiro desses bem branco.
— Ele é feio pra ela.
— Homem bom é homem moreno.

Estação Vila Mariana, desembarque pelo lado direito do trem.

— Se ele quisesse minha mão em bosta de casamento, essa hora eu tava perdida.
— Ainda bem que vocês não casaram.
— E não tem só essa menina não, tem um casal de gêmeos lá no nordeste.
— Gêmeos?
— Gêmeos, um irmão do outro.

Estação Ana Rosa, desembarque pelo lado esquerdo do trem.

— Então, daí eu falei que nem.
— E ele?
— Daí ele falou "que nem o caralho".
— O bagulho é louco.
— Os caras são foda.

Estação Paraíso, desembarque pelo lado esquerdo do trem.

— ...
— …
— …
— Tchau!
— Tchau.


Andréa Del Fuego é autora dos livros: Engano seu, Nego Tudo e Minto Enquanto Posso

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