Dor canalha

“A mesa é triste como uma bola branca que cai”
(frase de vagabundo da Lapa, apanhada por João Antônio)

No livro “Casa de Loucos” João Antônio mistura antropologia com poesia, boteco com teoria, delimita aquele espaço onde “malandro é malandro e mané é mané” e mostra toda a alegria de não se ter muito a perder. Fala de exílio, samba, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho e salões de sinuca, um “lugar de curtir solidão, de assumir a sua solidão com aquela macheza que a solidão tem (...) aquela solidão menos doença nervosa, solidão mesmo.” E eu fico pensando onde mora a ternura das coisas, tinha um jogador de sinuca (Boca Murcha) que chegou à Gávea e passou uma semana perdendo, daí que numa segunda-feira o malandro aparece no salão às 3 da manhã, mói todo mundo e sai fugido às 6 da tarde. Onde está a ternura disso? Essa malandragem me parece tão franca, tão à vontade, tão amoral... Mas nem o malandro escapa da sua solidão de macho, da melancolia das caçapas...
Você vê um cara com seus amigos em volta de uma mesa de bilhar e entende que aquilo se faz o centro do universo, que a noite, muitas vezes, é mesmo triste como uma bola branca que cai. Sou partidária do silêncio e já estive por volta dessas mesas de bilhar (no saudoso Jota, em Londrina - PR), mas sei que não abarco a dimensão toda da coisa. Outro dia fui com um amigo no Gruta (uma portinha na rua ao lado do Estadão), tem umas mesas de bilhar e um dono com gosto musical peculiar, ficamos lá até de manhã, taqueando, ouvindo jazz, conversando... Mas aquilo não era uma solidão de macho, era uma solidão de amigo, há diferença. Existem aqueles caras de meia idade, já coroas, que quase não bebem, que quase não falam nada, que fazem sua jogada no tempo exato de um olhar um tanto demorado. Na mesa de bilhar transbordam cumplicidade e solidão, esses dois extremos.
Solidão é o moleque fazendo rabiola de pipa sozinho no quintal, é a menina que tira a roupa do boneco pra ver o que tem por baixo, acontece que na vida adulta essa curiosidade se volta pra dentro e muitos se enxergam melhor à noite, sozinhos ou com amigos, em volta de uma mesa de bar ou jogando sinuca. Cumplicidade é quando um olhar se encerra no outro.
A noite me ensinou que a ternura, às vezes, pode ser brutal e que a solidão não é uma dor canalha.

*Dor Canalha é uma composição do Walter Franco


Luana Vignon tem 26 anos, mantém uma coluna  na revista virtual Muro escreve regularmente no blog Fake Souvenir e freqüenta assiduamente os bares e teatros da praça Roossevelt (além do Valadares, claro.)