Desviando de doido

Debaixo do Patrimônio Histórico, eu analisava a marquise cai-não-cai. Uma chuva fez os hippies debandarem: água! Dos que compunham a nossa mesa, só Wilson entrou, mas a chuvinha nem a careca de Chico Discos chegou a molhar, como bom sebista, os pingos lhe escorregam na fronte.
Passada a correria todos se acomodaram novamente na vizinhança. O beco de paralelepípedos úmidos deixou o lugar ainda mais nostálgico. Wilson pra chegar de volta à mesa ileso, teve que se desviar de uns três. Chegou rindo:
- Rapá... Aqui na Praia Grande a gente anda desviando de doido.
E é verdade. Mendigos, hippies, ambulantes e doidos fazem fila pra atacar nos bares do Centro Histórico. Maria-do-Copo, com o tal na mão, estica o braço e não leva nada na nossa roda de versados; o vizinho, um sueco, é mais caridoso e enche-lhe o copo. O próximo da fila ta tão embriagado que o sorriso não se desfaz mais, nem fala; estica os dedos médio e indicador e trás de volta à boca: suficiente pra ganhar um cigarro da mocinha ao lado; mas pede o fogo pro sebista, entregando-lhe o cigarro. Ele acende e fica a tragar tranqüilamente, enquanto o pidão se enerva:
- O cigarro, o cigarro!... – A muito custo, consegue pronunciar. Gago como ninguém, Chico emenda:
- Mas ‘u aum me ‘eu o ci’arro!? – E todo mundo ri da expressão de impotência do doido. Uns segundos depois, já de posse da nicotina, senta-se no batente de pedra-sabão do bar da Faustina.
O toc-toc dos saltos altos das patricinhas tiniam no beco que outrora abrigou a ZBM. Agora elas se encaminham pro Chez Mois, o “boteco limpo e fechado” da Praia Grande, onde as teens fashions e perfumadas chegam depois de virar o pé na pedraria irregular, correndo de hippie e desviando de doido. Espalhados pelas calçadas dos outros bares os marmanjos babam por elas; depois as gostosinhas somem escada acima do sobrado que abriga o bar e nos deixam apenas o sabor jovial de suas lembranças.
O chuvisco volta. Outro doido, mais chumbado ainda, chega e não consegue nada em nenhuma das mesas. Vai juntar-se ao primeiro, que já grampeou um quarto de cana de um argentino atípico. Ele se acocora com carinho, faz um chamego no cabelo do outro e já recebe “o vinte” do Hollywood turco. Os dois se sentam lado a lado no batente do bar que já se esvaziava, compartilhando os dois venenos divinos. Passam o cigarro e o copo de mão em mão, em silêncio, comprometidos num pacto tácito. O clima romântico me fez dar uma passada de vista na ala feminina da mesa, mas achei que seria mais feliz só. Conta paga, saímos desviando de mais alguns outros que buscavam suas drogas e seus pares.
Quebrando o silêncio alguém comentou: “Bom era a época do bar do Adalberto, que a gente fazia bingo de frango assado pra arrecadar uma verba pra reforma do bar”. Mas eu não acho. Até porque a única coisa que reformamos foi a porta, que o velho fechava cada dia mais cedo e na nossa cara. Outro disse: “bom era o bar do Rosa...” Bobagem; faz mais de 20 anos... Era tudo igual... Inclusive, lá tinha um doido...
 


Gerald Iensen é autor de: O Legado de Torres, Uma Outra Versão e Sêpsis.