Pau Cozido

Agora tudo é lojinha de artesanato genérico. Ahahahahahahahah... gargalhou a moça da mesa ao lado. “Essa foi boa Gerald: artesanato genérico”. É. Os mesmos: da Bahia ao Maranhão, de Mucuri a Carutapera, afinal tudo é Nordeste. O último a virar loja de vender batinhas, saidinhas-de-praia e pau-de-cabelo foi onde funcionou o Bar do Adalberto. “Ah!, mas lá tem umas coreirinhas e uns boizinhos tão fofos”, observou a jovem jornalista. “E tem doce-de-espécie que é uma coisa totalmente maranhense”, observou o funcionário público qualira. Dei um trago profundo no meu cigarro, minha maneira de suspirar sem ser notado.
A única coisa que faz relaxar quando passo por lá é o cheiro que não sinto. O bar não cheirava bem. Uma vez o Edu me disse que ficou envergonhado: tava com uma gatinha de “não-sei-onde”, que se engraçou com a freqüência do bar e quis entrar. Tava num daqueles dias de tarde-fornalha, uma temperatura que faz a umidade recuar e a amônia se enaltece. Desinfetante era uma pedra de carvão (já verde).  E não era só o boteco. Havia o azedume de alguns freqüentadores, alguns hilários, patéticos, doidos-de-pedra e toda a gama que a raça humana é capaz de oferecer. Uma das últimas vezes que eu ri de chorar foi num episódio com Zequinha Pau Cozido (que adorava imitar os discursos de um outro Zequinha).
            Nesse dia o bar tava lotado, uma fauna e tanto. Tudo se dava no anoitecer. A Feira da Praia Grande fechava no final da tarde. Zequinha, filho de um feirante considerado, era um alcoó..., um camarada de bigode que zoava mais que todos. Ele entrou no bar (que ficava do lado de uma das quatro saídas da Feira) com um saquinho na mão, havaianas pra suportar o inchaço da erisipela. Olhou para todas as mesas e se engraçou com a minha; parou na nossa frente e falou pra Cláudio: “paga uma dose aí!”.
- Rapáaaa! - respondeu o jornalista.
- Paga aí, cara.
- Só se tu considerar uns camarões desses aí. – Disse apontando pro saquinho plástico contendo um embrulho de jornal.
- Não! Isso aqui é pra eu levar pra casa.
Três minutos depois ele voltou com um pratinho, o qual encheu de belos camarões secos de Cururupu; as cascas pareciam diamantes rosados. Saiu com a dose. Cláudio bateu o fundo do cachimbo na mesa e balançou a cabeça. “Vai entender!”, sussurrou. Balancei a cabeça. “E esse camarão quem deu foi o pai dele. Um homem de 40 anos, como é que pode?!” Sussurrou de novo. Passei a vista pelo contingente; não vi diferença. Só faltava um espelho. Dez minutos depois uma mão encheu o prato novamente; valia bem mais do que uns centavos. Saiu com outra dose.
Meia hora depois Zé Garapa, do alto do seu metro e meio contava como tinha sido “um menino muito bonito”. Outra porção de camarão foi derramada no prato. Zequinha partiu pro balcão onde Adalberto esperava Cláudio autorizar a quinta dose.
- Fala “pau cozido”. – Cochichou Cláudio pro “menino muito bonito”.
- “Pau Cozido?!” – Publicou o Garapa.
- É a tua mãe, filho da puta. Vai tomar no teu cu, miserável. – Berrou Zequinha do balcão.
O bar gargalhou diante da ira de um e do susto do outro. E de cada canto subiam sonoros “pau cozido”, diante dos quais Zequinha esbravejava impropérios de todos os tipos, em português, inglês, árabe, sânscrito, japonês, iorubá, grego antigo e todas as línguas imagináveis. Até o Adalberto riu. Por quase meia hora todos pronunciaram “pau cozido” e Zequinha xingou todos e arriou a bermuda e mostrou o pau (“olha aí se meu pau é cozido”) e acabou rindo. Conseguiu uma última dose por um restinho de camarão e seguiu porta afora cambaleando de mãos vazias.
Quando a coisa se acalmou Garapa pergunta:
- Que história é essa de “pau cozido?”
- Rapáaaa! – Disse Cláudio batendo o fundo do cachimbo na mesa. – Esse Zequinha sempre foi muito saliente; uma vez ele atentou tanto uma cozinheira dentro da Feira que ela derramou uma bacia de água quente no colo dele. O “menino muito bonito” fez uma expressão linda.
A feira da Praia Grande não era um amontoado de lojas de artesanato. Ainda havia botecos do lado de fora.
Dentro é outra história.
Mas vai entender!
- Rapáaaaa! – Sussurra Cláudio.

Gerald Iensen, São Luís, 10 de setembro de 2007


Gerald Iensen é autor de: O Legado de Torres, Uma Outra Versão e Sêpsis.