As Lições

Talvez devêssemos imitar as avestruzes, ou talvez sejamos meros imitadores de avestruzes. Porque quando enfiamos a cabeça no conforto da ignorância outra parte nossa fica a mercê das hienas; e elas não perdoam! E a nossa terra está prenhe delas. A vida é uma coleção de lições poéticas. Como bem o disse Cioran, nada, nem a filosofia, se sustenta perante a grandeza, de Bach, de Shakespeare e poderíamos acrescentar Bandeiras, Dos Anjos e tantos homens que rechearam as fissuras da razão com o provento de nossa vontade de viver, o nosso devenir.

Tirar o sustento da terra, viver do suor do rosto, mão calejadas, e agora as grandes corporações... Como tudo naufraga no excesso, no hedonismo, na impaciência e na exploração dos tempos. Os tempos, ah, sempre os tempos!  Sempre a exploração, a injustiça, o homicídio, a tortura, o vício...

O filósofo americano Henry David Thoreau experimentou as pontas afiadas do descabimento. E o que não é descabimento? Qual a distância entre o camelô e o presidente da Grande Loja de Departamentos? A mesma que se segue entre um analfabeto e Dante? Quando Thoreau se fincou no meio do mato, entre lagartos e solidão, ainda assim apareceu um cobrador de Impostos, e depois uma polícia para encaná-lo. Mas agora tudo é Imposto. Até no ar.

Eu tava num caixa eletrônico quando o senhor alinhadíssimo ao meu lado me perguntou como se fazia algo relacionado a Imposto de Renda no caixa eletrônico. “Não sei”, respondi; “eu nem pago Imposto”, acrescentei. “Como, não paga Imposto?”. “Não pago. Para o Fisco eu nem existo”. “Se você não existe para o fisco, você não existe para o mundo. Você não pode ter uma conta no banco; nem pode ser um cidadão”.

Eu saí bem apressado, com medo. Parecia que aquele senhor que pagava Imposto iria mandar me prender a qualquer momento. Assim como Sócrates, quando ignorou o oráculo, quando ignorou as honras de ser “o mais sábio do mundo”, quando ignorou o mundo. Quem ignora o mundo tem que ser preso e morto, não pode ser um cidadão.

É como a música A tristeza do Jeca, aquele que “quando canta tem vontade chorar”. Ou talvez devêssemos imitar avestruzes, enfiar a cabeça no buraco e deixar o resto exposto.
Esse aqui é o reino da injustiça, o mesmo reino que assassinou Um que disse ter um reino de outro mundo; talvez um reino onde sejam todos reis, ou onde não haja rei algum, ou que sejam todos filhos do rei, ou pelo menos sejam todos amigos dele (e etc).
Os reinados são eternos. É preciso seguir as metanarrativas, cumprir as máximas que o mundo estipula. Precisamos estar expostos aos cobradores de Impostos, aos fraudadores, aos traficantes; nós que somos verdadeiramente risíveis. Nós que não temos reinados; nós que choramos com Shakespeare, com Haydn, nós que não resistimos ao choro ao ler o Canto III, da Divina Comédia. Essa comédia que nos apresenta, que traga os nossos filhos para o mais profundo buraco onde os chacais estão a nos testar. Nós, as avestruzes. Nós, os Diógenes, os risíveis. Quantos há que se escondem atrás dos risos? Que risos? Quem vai nos garantir a Terceira Margem do Rio? Quem pagará nossa fiança? “Quem nasce no morro não morre no asfalto”. Ah, meu amigo sambista, cuidado com as avestruzes. O pé do morro é um tipo de abismo; o pé do morro é o teto do asfalto, trocar um pelo outro e caçar um buraco para imitar avestruzes. “Vai à luta”, dizem-me. Sócrates foi à luta. Thoreau foi, Diógenes, Colombo. A guerra é ingrata, ela mata os jovens e os pobres. O poeta Carl Salomon foi à guerra: gritando para as paredes: “Eu sou Carl Salomon”. Ladrões e traficantes apenas se extinguem, como escorpiões em fúria. Estique uma mão e faça companhia a eles.
Acho que, além de Thoreau e de mim, quem deveria ser preso era meu amigo Gaivota, lá de Alcântara. Ele resolveu, há uns trinta anos, comer apenas frutas. Ora, como alguém pode comer apenas frutas? Gaivotas comem peixes, meu amigo Gaivota só come frutas. Será que é uma forma de enfiar a cabeça no buraco? Assim como outros amigos que não saem mais de casa, ou outros que nunca mais voltaram pra casa, ou eu que fico escrevendo palavras soltas tal um afinador de pianos? Ou seríamos avestruzes que se recusam a enfiar a cabeça no buraco?
Viva Thoreau, viva Gaivota, viva a Desobediência Civil!
Nós, que não somos filhos ou amigos de rei. 


Gerald Iensen é autor de: O Legado de Torres, Uma Outra Versão e Sêpsis.