Tímpanos anônimus no boteco

Sexta-feira pós recorde de ultra congestionamento. Em algum estabelecimento comercial ainda não interditado pela vigilância sanitária, protegido por toda a ilusão de democracia proporcionada pela localização num bairro relativamente “nobre e priviligiado”, jaz um par de tímpanos anônimos com atenção flutuante e hipersensibilidade auditiva...

         - Queiram perdoar o atraso. Fomos a uma vernissage ótima, fizemos amizade com o rapaz que servia pró seco e sabe como é, minha amiga Dorotéia não quis ir embora antes de observar a negociação informal de uma obra fantástica de arte contemporânea composta por uma estrutura de plástico com cerca de quinze ou mais carreteis de linha preta.   

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Sete mil reais!!!

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Uma pechincha se considerar que se trata de uma representação atualíssima da subjetividade feminina!

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Pode crer tia. Tenho um amigo que estava me explicando como é que é quando rola de vender os trampos nas galerias. Tem que sacar o raciocínio da parada. Pode fazer a conta aí. O Prato Feito custa, no mínimo,uns cinco contos. Com sete barões dá pra comprar 1400 PF´s. Se dividir sete mil por 365 dá menos do que a grana de um rango por dia! Tá justo pô! Ou vocês não acham?

        - Si, si ... no mais, que Cuba tem a elite arte?  Pergunta uma voz com a malícia daqueles tipos exótico sarcástico-sarristas que passam faceiros com pinta de membro de coletivo de artistas sempre dispostos a fazer intervenções em botecos.

        - Onde é? Fala ai que eu vou lá prestigiar o evento e tomar o pró-seco deles...

        - Isso, vá. Aproveite e coma uns canapés. Há que se ter senso de oportunidade. Até porque o Lula ainda não fez valer a profecia de que, haverá um dia em que nenhum brasileiro vai dormir ou acordar sem comer.

Comenta em tom áspero um rapasote se apresentando com notável orgulho da condição de ser um estudante de direito matriculado em universidade particular e filiado a um partido obscuro de extrema direita.

        - Ah, deixa de ser careta. Ouve só o som que eu gravei no meu I-fode: “não leremos jornais que noticiem crimes, não participaremos destas mortes vis, beija minha boca, varonissss. Beija minha boca. Beija minha boca amor...”. Muito bom, né? É Rita Lee numa das primeiras gravações depois dos Mutantes. Quer que eu faça uma cópia? Ou você é contra a pirataria?

        - Genésio, desce outra gelada. Amigos! Não percam o otimismo. É certo que o povo tem poder. Uma prostituta e cafetina capixaba acaba de derrubar o governador de Nova York!

Em silêncio só mesmo um grupo de amigos esperando alguém para uma surpresa debaixo de uma cartolina comemorativa com os dizeres: Bem vindos à Festa do Marcelo Boa Idéia – feliz cinquenta anos de boêmia e um de cirrose. Na rua o trânsito diminuindo e o bar fervendo...

        - Nós somos minoria mas nós existimos...

        - Céus! Será que eles são palestinos, homossexuais, muçulmanos ou negros? Ah, não! Negros não, negros não são minoria, são apenas discriminados.


Pensa o par de tímpanos, extremamente incomodado com tanto ruído. Cogitando extourar-se ali mesmo com o auxílio de um palito. E eis que, depois de um brinde empolgado em homenagem aos novos pecados sociais e a extinção do limbo, uma moçoila de 20  e muitos anos invade cordialmente o recinto a desejar boa noite aos presentes:

        - Serei breve, não pretendo roubar-lhes muito tempo. Gostaria de fazer uma enquete. Acabo de ter meu automóvel de quinze anos de idade impedido de ir e vir por supostos policiais não identificados numa suposta viatura a paisana. Dois deles saltaram do carro apontando um revólver para minha cabeça perguntando se  o que eu estava fumando era maconha. Respondi que estava tentando parar de fumar e expliquei imediatamente que se tratava de um cigarro cujos ingredientes básicos eram fumo de corda e palha de milho. Então eles guardaram as armas, liberaram a passagem e sumiram. Alguém aqui pensa que devemos considerar isso um fato natural e corriqueiro? Quem sim, por favor, mãos ao alto.

O tímpano foi o único a levantar os braços mas como todos fingiram que não viram e permaneceram atônitos evitando  polêmicas indesejáveis, preferiu ficar surdo, mudo e cego.

        - Nossa, será que estou vibrando na frequência errada ou moro mesmo numa cidade fascista e violenta?  Perguntou a estátua de Buda a máquina de cartão de crédito.

        - Se fosse na Europa  não seria assim.

        - Gente, é mesmo!!! A Europa! Claro! É hoje, não é? Ela mandou um torpedo avisando que  estava a caminho. Vamos buscá-la no aeroporto? Podemos chamar um táxi, mas antes pergunta quanto tá a corrida na bandeira dois. Se estiver muito caro manda ela pegar um ônibus. Só lembre de pedir para que ela evite o 174, a linha 743...

        - Kraaack!

        - Putz desculpa. Quebrei um copo!

        - Tudo bem! Se a água não bateu na bunda, não se preocupe. Vou passar um pano. Isso é quase uma rotina. Tá tranquilo, afinal, não existe guerra que não deixe seus cartuchos...  Diz o dono do bar, muito amigável, tentando disfarçar o sangue que lhe escorria do corte recém aberto por um insignificante caco de vidro fincado entre os dedos.