Utêrus Éthylique Solitarius no Boteco

O assunto é sério, vasto, profundo, obscuro, talvez interminável, sob muitos aspectos polêmico. Um tabu, pronto! Que bem poderia ser tema de trabalho de conclusão de curso, pós-graduação, mestrado, doutorado e obtenção de título de PhD. Merecia seminários, debates, conferências, encontros internacionais e o escambau. Que as feministas digam o contrário e que as machistas considerem justo que seja assim. O fato é que, nós, mulheres brasileiras ainda não conseguimos ficar sozinhas num boteco e desfrutarmos o direito de nos embriagarmos impunemente sem sermos incomodadas.

É um verdadeiro drama que assola mulheres de todas as idades: gatinhas, barangas, ninfetas, coroas e as já anciãs, incluídas. Mulher sozinha no boteco, não escapa. É batata. A patota olha, mexe, puxa papo, cutuca, impregna. Mulher em boteco sofre mais do que malandro com aparato de malandro federal nas CPI´s da vez. Não tem jeito. Sussurra o elevado senso etílico comum: se está só, das três ou quatro, uma: ou é mal amada, ou é vagabunda, ou tá procurando um macho, ou é sapatão.

E, para sondar devidamente o mistério, seja na mesa ou no balcão, sempre, aconteça o que acontecer, vítima da lei da gravidade ou abençoada pelo milagre do silicone, há de colar um cara chato querendo saber o que a pata tem a ver com o ganso e crente que tudo o que a pata quer é, exatamente, afogar o ganso.

Não se cogita a possibilidade da dita cuja estar passando por um dia difícil. Nem fácil. Se tivesse alegre, certamente não estaria sozinha. Ou então só pode ser afins de dar pro primeiro xavequeiro que lhe pareça minimamente atraente e demonstre ser mais um dos agraciados com o invejável dom da Santa Lábia dos Bons Mentirosos.

Ninguém pensa que ela pode estar triste porque o cachorro dela morreu, porque ela perdeu alguém da família, que não tem emprego, que foi demitida ou que está sofrendo alguma grande catástrofe pessoal ou então que foi acometida por convulsões existenciais ultra complexas e, portanto, precisa de um porre.

Que as descoladas batam o pé, que as intelectuais tenham chiliques, que os veteranos do boteco intervenham em legítima defesa e causa própria. Uma mulher, que não seja uma delícia clássica, mas que já tenha se convencido de que mesmo gorda é pra lá de gostosa, além de maldita em potencial, caracteriza um fator de perturbação da ordem pública nos botecos alhures, nobres estabelecimentos em questão.

O assunto é escorregadio, úmido, obscuro, profundo, eu avisei, parece não ter fim...enfim...é praticamente um útero! Utêrus Éthylique Solitarius no boteco....Eu acho que vou pedir que o Pedrão - melhor garçom da área, me traga uma porção de azeitonas, metade pretas, metade verdes, com palitos Gina novinhos em folha, que ele troque o cinzeiro e faça a gentileza de trazer mais um chopp, sem colarinho...