DIRETORIA

Numa daquelas “sociais” que começam com meia dúzia de gatos pingados, evoluem para quase para uma centena de “gatos pardos” e acaba com “a diretoria” trancada do lado de dentro do boteco. Os habittues e suas saideiras infindáveis enquanto o garçom empilha as cadeiras...

-        Ô Bernardo! Três cervejas, um steingheger e dois conhaques! - gritava  Carlitos, muito generoso. No mais era o único que ainda tinha moral pra pedir fiado.
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-        Pra mim um café! Pode ser? - quase resmungou Beth, pra lá de Bagdá e já sem os sapatos.
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-        Café? Mas café faz mau, querida! Tira o sono, você não sabia? Tinha até uma personagem de novela que ficou famosa por grandes sacadas etílico-filosóficas, e essa constatação era uma delas. Retruca Lurdinha, afogando o sorriso malicioso numa bicada de cachaça.
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-        Opa, peraí Bernardo! Nesse caso manda um uiscão pra todo mundo. Vamos encerrar a noite em grande estilo. Pessoal! Questão de ordem! Façamos um tributo a Heleninha Roitman, depois a Beth toma o que quiser, até água da torneira, que dizem, além do cloro, já vem hipocritizada. Não me venham com nove horas! E viva Heleninha, ovelha negra da familia pequeno burguesa! Altos sarros da Odette, pô eu lembro... era casada com um canalhão...e na mesma novela também tinha aquela gostosa da Maitê.
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-        Putz, nem me fale! Meu casamento tá uma bosta – lamenta Álvaro, o top chatão  insuportável  no quesito “dor de corno”. 

Antes que começassem as lamúrias de alcova, Bia sempre muito chique, sexy  e quase soluçando, resolveu contar do feriado que passou em casa, estudando trava-cérebros e outras pérolas da literatura zen:

-        Gente, esses mestres orientais são evoluidérrimos, prestem atenção, estudei mesmo, quase tive uma overzen dose, vou ler umas notas: “quando o silêncio e a fala são ambos inadimissíveis, como evitar o erro?”. Isso me ocupou dias! Outra que eu amei: “sentado tranquilamente, sem nada fazer, a primavera chega e a grama cresce por si mesma”. Eles não são incríveis? O único problema é que como só no domingo a noite eu resolvi sair da não-ação para tomar umas, acabei demitida no dia seguinte!Mas não se preocupem, estou ótima! Vamos brindar?
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-        Ok, vocês são dementes e já não dizem mais coisa com coisa. Desisto do café e proponho um brinde a irritação do mercado financeiro e às quedas e semi-quebras das bolsas de valores. E ao Carlito, claro, que vai pagar a conta! DJ Toca um mambo e ninguém me conte que ano é hoje!
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-        Tim, tim! Tim, tim! Tim Tim! À Heleninha!
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Protegidos pela já deserta mesa de sinuca, um casal de alienígenas, ligeiramente bêbado, no auge da química papo cabeça, curtindo o que aparentava ser o final emocionante de uma aula de física. Geração, transmissão e distribuição de energia. Diferenças entre direção e sentido. Frequência, tensão e campos magnéticos. Passa a régua. Todos já trôpegos pensam em Pasárgada, Lençóis ou outro paraíso acessível, qualquer. O segurança abre uma fresta da portinhola. Do lado de fora do estabelecimento, a menina de chinelos e olhos opacos abraça  o saquinho de cola, esperando  deitada na nóia para vender o último pacote de chiclete, no caso de alguém ainda estar preocupado com o hálito.