O GUARDANAPO

ACORDO AINDA MEIO ESTREMUNHADO e vou apalpando no criado-mudo o maço de cigarros para fumar o primeiro logo depois do café.

Tateio ao lado do maço o isqueiro, a carteira e um pedaço de papel meio amassadinho. Ao acender o abajur reparo que o papelucho é na verdade um indefectível guardanapo, dobrado e redobrado. Minha sensação ao iniciar seu desdobramento é um misto de satisfação e curiosidade. Não se trata de uma dobradura técnica como as japonesas, mas há diversas maneiras de bem ocupar seus espaços para que caibam pequenos apontamentos. Talvez um tipo de origami tropical com muita praticidade. Certo talento e alguns anos de treino são necessários para colocar nomes, telefones e anotações diversas com uma certa organização. Organização essa que perdura algumas horas, geralmente enquanto corre a happy-hour. Daí para frente o guardanapo é quem manda e geralmente o dia seguinte oferece um espetáculo visual interessante, composto de anotações feitas com mais que uma cor de tinta e diversos tipos de letras e caligrafias, ainda que muitas vezes sejam todas minhas.
É com o que me deparo agora. Dois ou três nomes e telefones dos quais me lembro muito bem e cuja sobriedade do momento em que os anotei me garante que para estes eu não vou mesmo ligar. Outras dobras vão compondo uma coletânea de hieróglifos que se espalham em todas as direções, agora com maior número de informações, chegando a me lembrar de pequenos compromissos assumidos.
Com calma e memória matinal, que se resume a algumas poucas lembranças, vou vendo o que há de importante e de curioso nesses rabiscos. Depois do logotipo do bar em que suponho tenha estado, descubro logo um tal Martins, que acho que é de outra mesa; sei lá o que é que esse Martins veio fazer justo no meu guardanapo! Logo em seguida o telefone da Regina, isso mesmo, aquela morenaça  me deu o número do telefone. Olha aí o guardanapinho rendendo os frutos, mas...alguma bobagem eu fiz quando escutei ou quando anotei: tem algarismo de menos aí. Deixa estar que outra hora a gente se vê.
Logo depois vem outro enigma: está lá escrito que devo passar um fax para o Edgar, cujo número está bem legível, provavelmente letra dele. O fax eu posso passar com prazer, mas...o assunto, qual o assunto, meu Deus?  É bom ligar antes, com alguma conversinha de cerca-lourenço para ver se descubro o que é.
Minhas notas nesses fabulosos papéis não se restringem a números e pequenas tarefas. Muitas vezes, chegando primeiro que os outros  no bar acabo tendo idéias para crônicas ou para a própria vida. Sim, são úteis para filosofar esses guardanapos, e eu os leio sempre com muita curiosidade algum tempo depois, defrontando-me com notáveis novidades.

SEI QUE TENHO UMA CERTA PROPENSÃO para preenchê-los, mas há outros bem mais viciados e mais competentes do que eu nessa matéria. Conheço vários maníacos, mas nenhum tão compulsivo como o Duíque, que numa só noite refaz todo o organograma da sua empresa, modifica a estratégia comercial, conserta a política externa brasileira logo depois de acertar as contas da prefeitura de  Teresina, fazer os palpites para a loto e preparar um bilhete ao presidente dos Estados Unidos norteando-o na questão do Oriente Médio. Rodeando a mesa dele, tem sempre um garçom servindo chopp e outro repondo guardanapos, e o importante é que os três trabalham muito bem.

                               
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NUMA MANHÃ DESSAS, depois de uma noite em que fui dormir cedo e bebido quase nada, encontrei uma surpreendente frase num desses papéis: ALGUNS DE NÓS NÃO SABEM DO QUE EU ESTOU FALANDO. Era a única anotação no guardanapo, escrita com a minha melhor letra, o que me reforça a impressão que a sobriedade é perigosíssima. Enquanto penso no que é que isso pode querer dizer –se é que quer dizer alguma coisa – me ocorre que alguns de nós não têm nem mesmo a menor idéia do que estamos sequer pensando.
E entre pensamentos, elucubrações e devaneios,  quero render minha homenagem a esse esquecido e sublime objeto, grande forma de comunicação conosco mesmos: o guardanapo, a verdadeira ata do botequim.