Esse cara tá mal. Leva ele pra casa, vai.

Pô, pô. Pô. Foda-se todo mundo, pô. Foda-se quem é pobre, foda-se quem é rico, foda-se o governo, foda-se o povo. Já viu essas criancinhas da África? Aquelas mesmo, morrendo, toda magrela, com aquele barrigão inchado, os urubú tudo em volta, esperando ela morrer, cheia de meleca escorrendo pelo nariz, cheia de mosca voando em volta. Já viu essas crianças, na época em que elas estão mais ou menos, torturando filhote de chipanzé? O macaquinho no meio da roda, apavorado, gritando de medo, e as criancinha
tudo lá, jogando pedra, dando umas taponas na cabeça do chipan. chip. chipanzézinho? E nós aqui fazendo campanha pra salvar criança da África, campanha de dar dinheiro pra cantor de rock inglês salvar criancinha da África. Já viu pobre, tipo motorista de ônibus, cobrador de ônibus, essas porra, tudo pobre, arrancando o ônibus, jogando as velhinhas no chão, o
trocador todo mau humorado, fazendo tudo com má-vontade, olhando pra sua cara com a aquele ódio? Já viu? Pobre é o caralho, África é o caralho,
criancinha é o caralho, proletariado é o caralho. Pô.
 


André Sant'Anna é autor de:
Amor (Edições Dubolso - 1998), Sexo (7Letras - 1999 e Edições Cotovia/ Portugal 2000), Amor e Outras Histórias (Cotovia - 2001) e O Paraíso é Bem Bacana (Cia das Letras – 2006).
Teve o conto O Importado Vermelho de Noé incluído na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Editora Objetiva - 2000), organizada por Ítalo Moriconi.