DOSES DE CHORO E RISO. NA MEDIDA.

Antes de passar à história propriamente dita, devo dizer umas duas coisas. Primeiro, que esta é mais uma história que conto de ouvido aqui no Boteco do Tulípio, pois não estava lá quando a mesma se deu – no entanto a coisa não descamba para o tão propagado jornalismo de ficção praticado no Maranhão, pois isto não é jornalismo (e fica aqui um aviso). Segundo, que ela tem influência fortíssima do "Suíte Gargalhadas", cuja leitura terminei recentemente, clássico-engraçado do Henrique Cazes que junta mais de cem histórias de músicas e músicos (e boemia) brasileiros. Terceiro, pedir aval e bênção a Ricarte Almeida Santos, embaixador do choro no Maranhão, que ficou de escrever sobre o fato – e pode fazê-lo, com maior riqueza de detalhes e, portanto, alguma graça mais, como aconteceu quando ele me contou no Bar do Léo, depois.

O fato é que o projeto Clube do Choro Recebe já tinha certa tradição no Bar e Restaurante Chico Canhoto, na Cohama, acontecendo todos os sábados, de forma quase sagrada. Por tratar-se de área residencial, no entanto, a música ao vivo rola somente até as onze da noite. Boêmios que querem esticar a noitada, por ali mesmo, podem fazê-lo, de forma civilizada, sem música e sem alteração – na voz, que o "beber com moderação" dos comerciais de cerveja, às vezes, não é o forte da rapaziada. Foi o que aconteceu já na madrugada de um domingo desses.

Era próximo de duas da manhã. Uma viatura da polícia militar estacionou e policiais desceram para orientar a esposa de Chico Canhoto: "Minha senhora, são quase duas da manhã. É bom fechar o bar, pois a senhora está correndo riscos". "Mas aí são todos cidadãos de bem", contra-argumentou a proprietária do estabelecimento. "Justamente por serem todos de bem, eles devem não possuir porte de arma. Logo, se aparece algum elemento mal-intencionado eles não poderão defendê-la", justificou o policial, que ouviu um "o quê que tu quer, me'rmão?!" de um dos boêmios que havia esticado o expediente etílico naquela noite-madrugada.

Não gostando da pergunta-resposta atravessada do músico, o policial se aproximou. "Vão trabalhar em outro lugar, aqui só tem gente de paz", o músico continuou. Percebendo que o homem da lei trazia a mão junto ao revolver, o boêmio deu um chega-pra-lá no policial: empurrou-o para trás. Algemado, pelo desacato, o músico foi jogado dentro da viatura, onde recebeu ainda uns sopapos – para ficarmos na leveza que este papo de boteco requer e merece.

Ao perceber a "arrumação", Chico Canhoto resolveu interpelar os policiais: "Não prendam meu amigo. Soltem-no. Prendam-me se for preciso, mas deixem-no em paz". "Se você quer ir preso, me desacate", ordenou um policial, que ouviu – e daqui a cena começava a ganhar ares hilários – um "você é um insensível!". "Me desacate, homem!". "Você é um imprudente, um insensível!". "Ah, tu não quer ser preso não... 'tu tá é me elogiando", o policial passava a régua e conduzia o músico ao plantão central.

Uma delegada, namorada de um outro músico, também havia resolvido esticar a noite. Mas, terminada a roda de choro no Canhoto, procurou outro canto. Botando o carro na garagem, já quase amanhecendo, recebe um telefonema: "Doutora, venha aqui pra delegacia, prenderam Fulano!" (preservamos aqui os nomes de nossos personagens, à exceção do dono do bar e do produtor do projeto, à guisa de propaganda).

Meia-volta no carro, destino: delegacia. O delegado de plantão tentou dar bom dia: "Fulana, você por aqui...". Foi interrompido: "Respeite! Pra você é Doutora Fulana! E solte o rapaz". O músico foi liberado e no sábado seguinte era platéia do Projeto Clube do Choro Recebe. Como se nada tivesse acontecido.

O Projeto Clube do Choro Recebe acontece todo sábado, às 19h, no Bar e Restaurante Chico Canhoto (Residencial São Domingos, Cohama, São Luís/MA).


Zema Ribeiro escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com e freqüenta também o Boteco do Tulípio, outro pedaço de paraíso.

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