BOTECO - UM PEDAÇO DE PARAÍSO

Era domingo à noite e milagrosamente, o bar não estava “cheio de bêbados que acumulavam garrafas sob a mesa desde a manhã”. Um pagode tocava baixinho nas caixas de som e uma única mesa reunia músicos, cujos instrumentos se amontoavam nos cases sobre outra mesa ao lado – soubemos depois que já havia acontecido uma roda de samba ao vivo.

Já era tarde e o tira-gosto havia acabado. Eu, que já havia bebido e comido lá por várias vezes, fizera propaganda da carne de sol e picanha baratas, da cerveja gelada, da música de qualidade em um volume que permitia a conversa entre os freqüentadores. Algo raro na Madre Deus deste começo de século XXI.

Logo os músicos foram embora. “Amanhã é segunda-feira” e eles precisavam se fantasiar de suas profissões, despir-se de músicos, ofício/vício que guardavam para fins de semana. Ainda não chegou, Leminski, o dia em que “tudo que eu diga/ seja poesia”. A estréia de Carlinhos Veloz começou a tocar. Entre ilhas belas e imperadores Tocantins, pensei em quão raro coisas do tipo haviam se tornado por ali. Minha saída para comprar dois churrasquinhos – o tira-gosto havia acabado – comprovou: porta-malas abertos, malas nas calçadas – os motoristas e seus “passageiros” – música (?) da pior qualidade: créus, caralhos-de-asas-do-forró, “cada um no seu quadrado” não na prática. O volume ensurdecedor de um som no bar x incomodava – ou não, há babacas que gostem – freqüentadores do bar y, ou passantes.

Voltei e Carlinhos Veloz cantava Maracá curumim. Não demoraríamos a ir embora, precisaríamos acordar cedo amanhã. Sentia saudades de uma Madre Deus que não conheci, década de 70, século passado, que abrigava filhos e habitantes ilustres: Chico Saldanha, Cesar Teixeira, Ubiratan Sousa, Cristóvão Alô Brasil, entre tantos outros que faziam o samba e a cachaça apanharem “até de manhã”. Pensei que aquele pedacinho do bairro encravado no coração da capital merecia preservação. E soube de moradores incomodados com o barulho. Ora, vejam só: não se incomodam com a barulheira desqualificada e desqualificante de outros barzinhos e querem impedir os proprietários de conseguir as licenças necessárias a seu funcionamento. O bar continua funcionando, servindo comida gostosa, cerveja gelada e música em altura compatível com a minha necessidade de conversar, papo sério ou piada, sem a necessidade de gritar para quem divide comigo a mesa.

A conta! As namoradas querem apenas ela. A saideira e a conta! Os namorados querem. Um acordo: enquanto tomamos a última do domingo, sem o trauma da música do Fantástico, a gente ouve um Benito di Paula, já que por duzentos paus a mesa, não vamos ao show. “Ah, eu vou embora...”, canta o pianista num samba (a)lento.

Serviço
Localizado na Av. Rui Barbosa, nº. 136, Madre Deus, o Cantina da Madre funciona de terça a domingo, a partir das 11h. No ramo de botecos, é pedaço de paraíso. Prove e comprove! E vice-versa.
 

 


Zema Ribeiro escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com e freqüenta também o Boteco do Tulípio, outro pedaço de paraíso.

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