MONÓLOGO INTERIOR DE UMA LíNGUA VIVA

Não tem estilo, o puto. Chega sem mais nem menos, vai metendo seus disparates no meu cu, pensa que sou uma qualquer. É claro que eu gosto de sacanagem. Estou na estrada há milênios. Não sou nenhuma Cinderela. Muitos já esporraram na minha boca, comeram meu cu, foderam minha buceta, fizeram miséria comigo. Franceses, irlandeses, judeus, poloneses, brasileiros, ingleses, americanos, assírios, babilônios, árabes, macedônios, argentinos, filhos-das-putas de todo o canto deste planeta. Sade, por exemplo, Henry Miller, Charles Bukovski, Paulo Leminski, James Joyce — até o maldito Vampiro de Curitiba fez o que quis comigo. Mas esses tinham estilo. Quer saber, até mulheres já me deixaram em brasa. Uma Hilda Hilst aqui, uma Anais Nin acolá. Não foram muitas. Sei lá, mulheres são sempre mais reservadas. Algumas, românticas demais. Pudicas. Ô palavrinha feia. Devia ser riscada do dicionário. Sei que não posso reclamar. Tenho que aceitar tudo. Mas pudica, é dose. Queria cuspir na cara do imbecil que inventou essa palavra. Devia ser um desses lordes ingleses, ou um velhusco centenário de Minas Gerais, esses sujeitos educados demais, que chegam a pedir permissão para comer uma buceta. Pior, devia ser um daqueles senhores sebosos, chatos, cheios de rodeios, colchetes, parênteses e essa tralha toda, que chegam com aquelas cantadas fajutas, oh, minha deusa, seus olhos cintilam como rubis nas minhas noites de insônia, minha galante dama, gazela nos pastos de Apolo, deixai-me recostar meu desejo aflito no regaço dos seus formosos seios, ah, mulher cujos cabelos doirados são fios de ouro tecidos pelas ardentes mãos de Afrodite. Quantos desses tapados tive que agüentar nesses séculos todos. Tinha vontade de arreganhar minha buceta e gritar com todas as forças: vai, panaca, mete logo a língua no meu grelo. Lambe meu cu, desgraçado. Mas não podia. Não posso. Tenho que ser maleável com todos. Meu criador não me reservou este privilégio. Meus criadores, melhor dizendo. Não estou reclamando. Não tenho do que me queixar. Se fui obrigada a suportar o peso-morto de idiotas sebosos sobre meu corpo, também me refestelei com homens de verdade. Lembro de um, lá pelos idos de um mil seiscentos e poucos, que me levou às alturas. Meu Deus, como fodia. Vinha sem rodeios, mostrando serviço. Adorava suas sacanagens. Metíamos rindo. Ele tirava o mastro pra fora e me levava às gargalhadas com aqueles versos putescos: Senhora, a quem sigo, de tão raras condições, é caralho de culhões, das mulheres muito amigo: se o tomais na mão, vos digo, que haveis de achá-lo sisudo, mas sorumbático, e mudo, sem que vos diga, o que quer, vos haveis de oferecer, a seu serviço contudo. E como se oferecia aos meus serviços! Vinha com sede ao pote. Lambia cada gotinha dos meus líquidos. Eu também não me fazia de rogada; abria-me inteira, deixava que ele explorasse todos os meus atrativos. Que prazer o sacana arrancava das minhas entranhas. Gozava como um homem-cavalo. Ah, vocês, minhas irmãs mais recatadas, que me desculpem, mas tenho que confessar: como eu gosto de ver um pau esporrando!
Agora vem esse panaca, com uma piroquinha de merda e uma arrogância desse tamanho, pensando que sou uma qualquer. Ele se julga um cara de vanguarda, prafrentex, mas não passa de um clone piorado do Pedro Bial.
Qualquer dia corto-lhe o pau com um travessão bem afiado e meto-lhe uma vírgula desse tamanho, corpo 1.200, bem no meio do olho do cu.


Ademir Assunção mantém rígida disciplina samurai há pelos menos duas décadas: bebe às terças, quintas e sextas e escreve todas as manhãs, exceto naquelas de ressaca.

É, também, editor da Revista Coyote e autor de: LSD Nô, Adorável Criatura Frankenstein, Zona Branca, Cinemitologias, A Máquina Peluda, e do CD Rebelião na Zona Fantasma.

Leia outros textos do Ademir