O General da Banda

A notícia surpreendeu quem conhecia o caboclo e foi dada pelo Niltinho:

- Prenderam o Manoelzinho Mota !

As senhoras e os senhores que não conheceram o Manoelzinho não fazem idéia do caráter inusitado do acontecimento. Manoelzinho era um cachaça clássico, morava em uma vila no Lins de Vasconcelos e enchia a caveira de forma industrial, mas era tão agressivo quanto um ataque do Botafogo nos anos 70 formado por Tuca, Cremílson e Puruca, que fazia em média quatro gols. Por ano.

Como ia dizendo, meteram o Manoelzinho no xilindró. Formou-se, de imediato, uma comissão de notáveis, com decisiva participação do meu avô, ata de fundação e o caralho, pra resgatar o bebum das garras da justa.

A causa da prisão era um clássico - perturbação da ordem pública. O local do delito, o cemitério de São João Batista. Explico.

Tinha morrido, na véspera, o Blecaute, grande cantor, famoso pela gravação do samba General da Banda. Necessário dizer que o Manoelzinho Mota adorava o crioulo. Conhecera o Blecaute na época em que o negão era patrono da Casa do Pequeno Jornaleiro e o Manoelzinho era um deles.

A notícia foi dada pelo Mineirinho:

- Mota, o Blecaute foi oló.

- O Blecaute? Não sacaneia, porra...

- Pois é.

Destruído, envelhecido em barril de carvalho, lá foi o Manoelzinho ao enterro do Blecaute. Deu-se, porém, que o nosso cachaça foi ao cemitério errado. Blecaute estava sendo velado no Caju e o Manoelzinho, aos prantos, parou no São João Batista.

No que entrou no cemitério e viu uma capela cheia, não teve a menor dúvida: era o velório do Blecaute.

Leitores, acreditem. O homem entrou no velório do General Mourão de Matos, ex-chefe do Estado Maior no governo Castelo Branco. Nenhum problema se, comovidíssimo, o Manoelzinho não resolvesse homenagear o saudoso Blecaute.

Já entrou na capela, aos prantos, berrando :

- Nada de tristeza! Ele só nos deu alegrias.

E começou a cantar:

Chegou General da Banda, Ê, Ê,
Chegou General da Banda, Ê, Á...

O mais incrível, o mais incrível. Aos poucos, vários presentes ao velório do Mourão de Matos começaram a acompanhar o Manoelzinho. De repente, o coro ganhou proporções fabulosas, e o São João Batista cantava:

Mourão, mourão,
vara madura que não cai.
Mourão, Mourão,
cutuca por baixo que ele vai.

Mas, senhores, a família do General não gostou da homenagem. Um primo foi mandar o Manoelzinho parar e recebeu a resposta cortante:

- Parar? Não fode, porra. Eu amava esse crioulo!

- Crioulo? Respeita o General, seu bêbado de merda!

O pacífico Manoelzinho virou bicho. Pegou a primeira coroa de flores que viu pela frente e afundou no pescoço do primo do General. O tempo fechou. Em cinco minutos ninguém mais sabia quem estava batendo, quem estava apanhando e por que o furdunço tinha começado. A esposa do general desmaiou na hora em que o coveiro recebeu Seu Tranca-Ruas e passou a dar porrada em todo mundo, defendendo o Manoelzinho, que Exu não ia deixar um cachaceiro na mão. No auge do quiprocó, Seu Tranca-Ruas jogou o caixão no chão e um amigo do General deu sete tiros pro alto.

No fim das contas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos e o Manoelzinho foi em cana. Queriam prender o coveiro, mas quando Seu Tranca-Ruas se identificou, a polícia achou melhor não brincar com o homem e formou-se até fila pra consulta, com esposa de coronel recebendo a Cigana e o cacete.

Quando saiu da cadeia, acompanhado pela dileta comissão encabeçada pelo meu avô, Manoelzinho encheu o pote e deu a primeira declaração pública sobre o episódio, para os anais da história do Lins de Vasconcelos:

- Admito tudo, menos uma coisa; um puto qualquer no cemitério me acusou de desrespeitar o Blecaute. Tudo bem que eu peidei enquanto cantava, mas foi bonito pra cacete, porra. Todo mundo cantou junto. O Blecaute, que Deus o tenha, deve ter ficado feliz.
 

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