A apoteose de Toninho Itabaiana

- Nunca ouvi falar dessa porra! Foi assim, espontâneo pra cacete, que o Aluísio reagiu ao anuncio do enredo da escola. O carnavalesco, em delírio teatral, quase virando confete, anunciou o momentoso tema “Von Langsdorf - uma apoteose multicor na terra dos colibris”.


            Anunciado com estardalhaço o título, o jovem artista plástico (ele preferia ser chamado assim) explicou que se tratava de uma homenagem ao Barão Von Langsdorff, um russo que no século XIX veio ao Brasil em uma missão científica a mando do Czar. Parece que o camarada pintou os cavacos por essas bandas. Percorreu a Amazônia, meteu a porrada em índio, catalogou não sei quantas mil plantas, pegou malária e morreu maluco. Um negócio sério.
            Na mesma hora, duas preocupações surgiram entre a rapaziada da escola. Alguns acharam que o carnavalesco estava inventando esse barão. Outros, acreditando na existência do homem, ficaram preocupados com o seguinte:- se o samba citar o nome do sujeito, quem é que vai pronunciar um negócio desses?
            Eis que, na véspera do desfile, uma notícia ameaçou colocar água no chope da comunidade. A Valdete, ou melhor, o Oswaldão, vulgo Valdete, um puta de um traveco de um e noventa e oito de altura, cortou os pulsos quando soube que fora traído pelo Mirinho. E exatamente ele (ou ela, escolham) iria representar na avenida o aristocrata russo.   
            A fantasia estava prontinha. Uma fortuna, com mil e quinhentas penas de pavão real, dez mil lantejoulas, chapéu de meio metro de altura com penas de aves asiáticas e o caralho a quatro. O negócio era encontrar alguém com as medidas da Valdete para desfilar representando o apoteótico Barão.
            - Toninho, não tem outro, meu chapa, é você mesmo. Tudo em nome da escola.
Foi assim, sem meias palavras, que o diretor de carnaval anunciou ao Toninho Itabaiana que ele seria o Von Langsdorff na avenida.
            A cara que o crioulo fez foi um negócio sério. O negão tinha fama de mau. Foi zagueiro do Olaria na histórica campanha do clube da Rua Bariri na taça de bronze de 1980. Com tremendo orgulho, afirmava ter sido expulso mais de vinte vezes na carreira. Jurava ter quebrado meia dúzia de pernas e aberto uns cinqüenta supercílios de centroavantes atrevidos. Perto dele o Felipão Scolari não passava de um Dalai Lama dentro da área. E agora vem essa de colocar o negão de destaque.
            Mas não tinha jeito. A fantasia caiu como uma luva no corpanzil do negão. Foi um deus nos acuda dos infernos: – Não desfilo com essa roupa de viado nem debaixo de porrada. - E quero ver quem vai me obrigar.
            A Marlene obrigou. Vale dizer que a Marlene, gostosa pra cacete, era a paixão escancarada do Itabaiana. No que a mulata ameaçou, o valente botou a viola no saco e concordou com a inglória missão. Toninho Itabaiana, zagueiro, peixe-espada, neto de cangaceiro, currículo invejável na zona do agrião e adjacências, iria representar o nobre barão Von Langsdorff na passarela do samba.
            Concentração da Sapucaí. Do lado do Balança Mas Não Cai, cheiro tradicional de mijo com churrasco de gato, o negão, quase do tamanho do lendário edifício, bufava. Tava puto nas calças com os gritos vindos da turma do sereno, a rapaziada que, sem grana, ficava circulando na concentração empentelhando todo mundo: – Linda! Deslumbrante! Viado! Passa lá em casa! Esse piolho é lêndea! E coisas do gênero.
            Ameaçou partir para cima de um camarada que, vendo aquela fantasia com pena pra tudo quanto é lado, tirou onda com o negão: - Sabe o que é que o pintinho bicha disse quando saiu do ovo? - Estou chocadíssimo! Se não fosse a turma do deixa disso, o carnaval acabava ali mesmo.
            Cheio de cana, que ele não era louco de aturar essa de cara limpa, Itabaiana dobrou a curva do desfile no alto de um carro com umas trinta mulheres peladas, representando o delírio das Amazonas.  – Eu vou cair, caralho! Me tira dessa porra! Gritava o Toninho, ou melhor, o Barão Von Langsdorff.
            Aliás, ainda no esquenta da bateria, um temor se confirmava. Ninguém conseguia pronunciar o nome do Barão, muito menos o Duarte da Cuíca, puxador do samba. E o refrão não fazia por menos:
            - Apoteose multicor no céu anil
              O Barão Von Langsdorff
              Descortina o Brasil.
            Impronunciável. O Duarte não teve dúvidas. Não falou o nome do Barão uma vez sequer. Quando chegava o refrão, ele saudava as baianas, a bateria, o povão da apoteose, a turma do Muquifo... Sem ter mais a quem saudar, chegou até a gritar um incompreensível “alô meu presidente Getúlio Vargas”. Mas Langsdorff, que é bom, nunca.
            Quanto ao Itabaiana, a coisa esquentou. As arquibancadas aplaudiam delirantemente o Barão. Se no início o negão, puto da vida, não queria conversa, no meio da avenida a história era outra. Aplauso vem, aplauso vai, o malandro sucumbiu.
Começou mandando uns beijos tímidos, foi se soltando, gostou da fama e, como disse depois a Marlene, perdeu a vergonha na cara.
            Depois da apoteótica passagem pela avenida, Toninho Itabaiana desceu do carro meio enviesado. Não falou palavrão, não olhou pras bundas daquelas trinta mulheres, não pediu um chá de urubu. Apenas levantou o queixo e foi em frente.
            O Jairo, companheiro de anos de bateria, não perdoou:
            - Vai aonde, negão? O desfile acabou Itabaiana.
            Impávido, o ex-zagueiro, mais ex-zagueiro do que nunca, mandou na lata:
            - Me respeita, morto de fome. O Itabaiana morreu, ouviu bem, meu amor. Eu sou é Barão, seu merda. Barão...

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