Oração pro buteco nosso de cada dia

Quando chegamos num buteco pela primeira vez, há que se ter, necessariamente, olhos de ver e ouvidos de ouvir para que, respeitada a liturgia do lugar, possamos descobrir, depois de alguns copos, se estamos ou não num templo autêntico.

Quando o Tulípio, tremendo figurão, esteve aqui no Rio de Janeiro com outras duas hilariantes figuras, o Edu (meu xará) e o Stocker, e eu os levei ao Rio-Brasília, ele ficou – eu vi!, eu vi! – embasbacado quando o garçom, Deus, chegou-se à mesa com as cervejas, o maracujá da casa e os primeiros pastéis.

Ele me disse:

- Deus?

E eu, já bicando o maracujá:

- Deus. Duvida?

Ele, respeitoso, nada disse.

Pra fazer lenda – um dos troços mais divertidos dentro de um buteco – eu pedi que déssemos as mãos.

Daí formamos a corrente: eu, Luiz Antonio Simas, Edu Rodrigues, Stocker e o Tulípio.

Chamei Deus e lhe disse:

- Fique aqui. Vamos rezar.

Comecei, alto e contrito:

“Bendita sois vós, bebida fermentada,
feita da cevada, do lúpulo e doutros cereais.
Rogai por nós, proteja-nos gelada,
vós que sois sagrada, vós que sois eterna,
vós que sois capaz
de amenizar os prantos,
de harmonizar o canto,
de confortar meus ais.
Bendita sois vós e, em vosso nome, reunidos,
evocamos vossa presença que conduzirá
o bate-papo de todo dia,
antítese do profano,
cerimônia da alegria,
que nenhum de nós, nós vos juramos,
por motivo leviano, abandonará.
Santa bebida, conservai, por excelência,
vosso manto, o colarinho branco,
que conserva vossa essência,
e admirai o carinho que todos nós vos rendemos
e todos nós prometemos vos adorar como a mais ninguém.
Já que sois vós quem nos anima as noites,
já que sois vós quem embala os amores,
já que sois vós quem sempre nos socorre.
Rogai por nós, os bebedores,
agora e na hora de um novo porre.
Amém!”

E Deus, ali do nosso lado:

- Amém!
 

 

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