Vila Isabel – A gênese

Estamos em abril de 1999. Vidal me telefona e manda, antes de responder ao meu alô:

— Vou me casar em agosto e morar em um apartamento que ganhamos de presente, Rua Ribeiro Guimarães, sabe onde fica?

Não, eu não sabia.

Ele bem que tentou me explicar, mas diante da dificuldade disse:

— Tô passando aí, vamos até lá.

Rua tranqüila, décimo-segundo andar, e Vidal já estava com seu arsenal pronto; comprara luneta, binóculo e telescópio, todos com lentes de precisão cirúrgica, longo alcance e nitidez de TV de alta resolução, e logo de cara foi me mostrando as melhores janelas da vizinhança, os melhores ângulos, já tinha preparado uma tabelinha com os horários quentes, que ninguém é de ferro, todas as posições foram escolhidas ainda no período de visita ao apartamento, que o Vidal, minha gente, é isso aí, não perde tempo. E a varanda, ah! a varanda!, embora estreita, é campo de observação de causar inveja à OTAN. Vê-se com perfeição a Ponte Rio-Niterói, o Maracanã, o estádio de São Januário, os bares da região, os quartos de uma dezena de vizinhas, uma festa!

Havia um bar na esquina mais próxima, muros azuis e brancos, um clima assim meio ladeiras de Ouro Preto... Fomos à inspeção, que bar perto de casa é mão na roda. Eu já conhecia o buteco por alto, o Xodó, mas sem aquela intimidade que só os balcões permitem. Fica na Rua dos Artistas, esquina com a Ribeiro Guimarães (jamais soube o nome dessa rua... o bar sempre esteve, pra mim, na Rua dos Artistas e pronto!).

Minha intenção era apresentar Vidal ao dono, o Quincas.

— Cadê o Quincas? — perguntei ao sujeito por trás do balcão.

— Prazer, sou o Pires, amigo do Quincas. A gente tá armando uma meinha aí, ele encheu o saco do bar e eu do táxi. Trocamos por uns meses pra ver se dá certo.

Meinha? Tá bom. Pires? Gordo daquele jeito? Na sexta garrafa, chamamos o cara à mesa e dissemos aos berros:

— Olha, mermão, tu é muito gordo pra Pires. Vamos chamá-lo de Bule, certo?

Todo o povo que se espremia junto ao balcão caiu de rir e o apelido, é verdade, pegou.

Papo vai, papo vem, cerveja que desce, caldinho de feijão com parmesão, “dois-com-fome” (especialidade do bar à base de carne, cebola e fritas, que duas pessoas esfomeadas comem com folga), Vidal resolveu fazer uma enquete de improviso pretendendo ganhar a simpatia dos freqüentadores, com o glorioso Bule no comando da mesa-redonda, pedindo silêncio.

Vidal interrompeu a porrinha e expôs o problema: o bairro do apartamento que ganhara constava, no carnê do IPTU, como sendo Tijuca. Na conta da CEG, Maracanã. Na papelada do cartório, Andaraí. Na opinião do porteiro do prédio, Aldeia Campista. E na boleta da Light, Vila Isabel.

Ânimos exaltados. Um dos biriteiros, o Seis-com-Fome, apelido ganho pela gula insana, berrou que a Tijuca começa na Praça da Bandeira e termina na Rua Uruguai, limitada à direita de quem vem da Zona Sul pelo estádio do Maracanã e, à esquerda, pela Rua Hadock Lobo. E que a Praça Varnhagen é um dos limites. Passou da praça, à direita, não é mais Tijuca.

Apupos, gritos, torresmos atirados em várias direções como confete, e o consenso é atingido: não é Tijuca.

Maracanã? Outro freguês, o Amorim, barba por fazer, aspecto de quem estava há anos naquele balcão — o piso próximo à geladeira tem a marca do pé do cara —, gritou que Maracanã nem sequer é um bairro. Maracanã é o estádio, e quando muito, se bairro fosse, só compreenderia as ruas que o rodeiam.

Consenso atingido mais rápido, assovios, palmas, não é Maracanã.

Andaraí? O bicho pegou violento. Um coroa, seu Osório, mudo até aquele momento, parecia estar só esperando a deixa. Pediu silêncio e um limãozinho. Deu um gole só, mandou um arroto de furar tímpanos e disse, tirando uma carteira vermelha e branca do bolso:

— Porra, eu sou América, seus putos! Só quem é América lembra onde ficava o Andaraí. Só quem é América sabe que o Andaraí é um lugar que não existe mais, aquele resto de bairro, aquele canto americano agora chama-se Iguatemi, especuladores de merda...

Caiu num choro comovente, jurou amor eterno à sua santíssima trindade Pompéia, Edu e Luizinho, ídolos das antigas, e obteve unanimidade: aquilo não era Andaraí.

Mas se todos achavam que a solução estava próxima, ilusão... Aldeia Campista, proposta na mesa. Vidal entregou Bigode, o porteiro, como sendo o responsável pela indicação.

— O quê?! — urrou o Bule — Aquele filhodumaputa não paga a conta dele aqui há meses, cachaceiro da pior espécie, bebe mal... Aldeia Campista é o cacete!

O estopim. Bule no meio, dois grupos divididos, mais aguerridos e agressivos do que sérvios e albaneses. Voaram os restos de torresmo torrado jogados no chão, nego cuspia verde na direção dos outros, Bule em absoluto desespero, Quincas acabava de estacionar o táxi e assustou-se com a cena. Outro arroto, mais monumental ainda, de fazer eco e tremer os copos, do mesmo coroa, que assumiu orgulhoso (“Fui eu de novo!”) a autoria da eructação. Silêncio absoluto, misto de nojo, respeito e medo.

— Trégua, seus putos, trégua de 10 minutos, porra! Vou em casa rapidinho e já volto com a solução.

Os 10 minutos mais longos da carreira comercial de Bule. A integridade do bar estava em jogo, neguinho rosnava de ódio e seu Osório convocara Quincas para uma corridinha de táxi rápida até sua casa, na Rua General Espírito Santo Cardoso. Ia buscar a solução do impasse.

Chegaram com intermináveis três minutos de atraso, o velho com um livrinho na mão pediu a todos que sentassem. Uma multidão cercava o bar, apostas eram fechadas, os churrasqueiros de todo o quarteirão montaram às pressas seus apetrechos atrás de um melhor faturamento. O velho bebeu outro limão, lambeu os beiços, pôs os óculos remendados com esparadrapo nas hastes, subiu numa cadeira amparado por Bule e, evidente que após mais um arroto, leu em voz alta, em tom monástico:

“Já adulto, era comum ter pela frente chatos e bêbados, ou bêbados chatos, garantindo que eu não morei em Vila Isabel, porque minha rua ficava em Aldeia Campista. Respondo o seguinte: no dia em que me mudei pra lá, meu avô português me ensinou: — Se te perderes e alguém perguntar onde moras, tu dizes: na Rua dos Artistas, número 257, em Vila Isabel. Vão se fuder. Babacas, eu nunca saí de Vila Isabel, estão entendendo?”

O coroa prosseguiu, emocionado:

— Tá aqui no livro “Vila Isabel, Inventário da Infância”, de Aldir Blanc, seus putos, o Aldir, hoje meu quase vizinho, página 23, editora Relume-Dumará. Entenderam, seus putos, seus babacas? Vão se fuder, seus bêbados chatos! Vem cá, Vidal, meu filho, vem cá, porra... — seu Osório chorou — Você mora em Vila Isabel, entendeu? Em Vila Isabel, porra! Ele mora em Vi-la I-sa-bel, ouviram babacaços!?!?

Palmas comovidas, seu Osório saiu carregado, Vidal chorou junto e pagou emocionado o pendura do porteiro, Bule ofereceu uma rodada de cerveja, e assim escreveu-se o primeiro capítulo das muitas lendas daquele pedaço da Vila.

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