Meu Dente de Ouro - Por Betomenezes

O brilho que vejo quando estou de frente ao espelho é o do meu dente de ouro. De boca aberta, admiro tão preciosa aquisição.

Ele, arranquei da boca de um cigano depois de uma briga de bar. No espelho, não procuro meus olhos, eles estão perdidos mirando meu dente de ouro. No carteado, apostei alto com o cigano, o seu dente de ouro contra a medalha de prata da minha finada avó. Estávamos bêbados, éramos vagabundos, não tínhamos mais nada de fiança só a herança da nossa miserável origem. Quando apostei sabia que o cigano de dentes podres escondia algo de mim, uma mão boa, talvez.  Seu sorriso de confiança me afligia, mesmo assim ganhei. O espelho reflete para mim o sorriso do cigano, no dente de ouro que lustro com a escova de dente. Nem olho mais para os outros dentes, antes, eu os escovava com todo zelo. Passava fio dental entre eles. E terminava usando um daqueles líquidos caros que ardem as bochechas. Maldizia as cáries, os tártaros, os pedaços rebeldes de carne que tirava sem dó. Ia ao dentista como as mulheres ao ginecologista. Quando eu contava a ele todas as minhas angústias, apenas sorria e balançava a cabeça. Não deu o sorriso de pirata que o cigano deu quando dele arranquei fora o dente de outro, não sei se era apenas um sorriso de bêbado, ou se havia algo mais, talvez. Meus olhos por um momento se perdem quando tento entender de que o cigano ria. Desespero? Se calhar não, sei lá. Nem quero mais saber daquele bêbado maltrapilho, só do grande tesouro que é meu dente de ouro, atração principal da porta da casa de Deus. Não havia competição entre eles antes dele chegar, todos os dentes sabiam seus lugares na Arcádia, corrijo, arcada. O dia da sua chegada foi feriado nacional, o espetáculo pirotécnico iluminou o céu da boca, houve banquete, churrasco e discurso em praça pública. O pré-molar que o dentista extirpou, para colocar meu dente de ouro, sentiu-se honrado com o grandioso sacrifício, virgem martirizado em favor de um bem maior. O tempo festivo passou, e quando os dentes perceberam a nova situação, perderam brilho, decepcionados. A esperança de dias melhores com a presença do vizinho ilustre logo se foi. O que eu poderia fazer? É caro e gasta tempo manter o dente de ouro. Nem toda escova, nem todo creme dental eram suficientes para mantê-lo lustroso. Quem conseguiria sustentar o brilho, junto ao dente de ouro? Mudaram de cor, amarelaram e cariaram. Porém nada mais importa a esses outros, agora que tenho meu dente de ouro ganho na aposta com o cigano de dentes podres. Quando olho agora para o espelho, me desespero. A presa atrevida encosta no dourado de maneira efetivamente violenta, até meio que o empenou. Isso não pode acontecer, mexeram com o dente errado. O que a presa esperava com aquilo? Atenção? Se acabem em brigas e confusões, mas deixem de fora meu dente de outro. Se pensou que ia ficar assim, enganou-se. Vou à cozinha, arranco gavetas. Cadê? Cadê? Onde se meteu? Depois de derrubar meia casa, encontro o alicate nas bagunças do quarto da minha mulher que se foi. Como na partilha deixou de fora meu dente de ouro, nem liguei. “Leve as crianças, o carro, o cachorro, a bicicleta... Venha aos sábados quando tiver a fim de trepar, mas digo: ‘vai ter que beijar a mim e ao meu dente de ouro, do qual você desdenhou’”. Com o alicate de aço ataco a presa, presa ao dente de ouro. Ela insiste em ficar cruzando as raízes como pernas, mas sai. O despropositado sangue também sai, o desgraçado tenta me comover com sua forma fluida rubra. Mal ele sabe que adoro sagüinolência. Jogo a presa na privada, dou descarga. Os outros dentes revoltados fazem um protesto, formam às pressas um sindicato, preparam a insurreição. Agora o circo está formado, chamaram até TV, em discursos inflamados me denominam de latifundiário. Em protesto, bloqueiam a garganta, impedem a passagem de ar. Deliberam pela madrugada que meu dente de ouro deve ser arrancado, pois não foram atendidas as reivindicações. Acusam o coitado de algum tipo de traição, afirmam que ele fere a regra áurea da constituição dental. O golpe de estado foi posto em ação. Começa então a batalha sem hora para acabar. Eu e o alicate, minha espada, somos surpreendidos por dois incisivos traiçoeiros. Não os vi chegar pois olhava com preocupação para o meu dente de ouro. Desequilibrado, caio no chão. É luta injusta. Meu dente de ouro, como uma estátua clássica perante os bárbaros, começa a ceder aos bombardeios laterais dos pré-molares. Não se pode exigir muita coisa do dourado, ele teve educação de nobre, não de soldado. Na retaguarda, os molares, generais gordos, assistem à batalha de cima de suas éguas premiadas, coordenam o ataque com as estratégias passadas pelos antepassados, os de leite. Mas nenhuma maestria é suficiente quando pela frente há alguém perseverante como eu, cavaleiro Jedi e meu sabre de luz. Me liberto dos incisivos e os degolo de uma só vez. Corro então em auxílio a meu dente de ouro. Com muita esgrima, arranco todos, um por um. Chego aos generais, esses eu encurralo no pé da língua, esta por sua vez, monstro mitológico, os empurra desfiladeiro abaixo. Na escuridão do estômago, os ácidos se encarregarão do destino deles. Enfim, arranco também os sisos que ainda não nasceram, para que não haja vingança na próxima geração. Resta apenas um, meu dente de ouro, brilhante mais do que nunca, na boca. Fico contente com a vitória napoleônica. No espelho, meu dente de ouro, o meu troféu. Só nós dois vivos. Vivos, nós dois continuamos olhando para o espelho. Apenas nós dois: eu e meu dente de ouro, porteiro do palácio de Deus.