“ADONIRAN E OS GALINÁCEOS”

Contava Dona Mathilde Rubinato, quando já viúva do saudoso Adoniran Barbosa, que este adorava comer macarronada com frango assado todos os domingos, chovesse canivetes abertos ou fizesse sol.

Mas a particularidade é que Adoniran, por capricho ou apego às tradições do interior, preferia ir comprar o frango ainda vivo, para assassiná-lo com um pescoção no aconchego de seu vasto quintal.

Ocorre que Dona Mathilde conhecia muito bem seu marido e por isso mantinha no congelador um frango previamente decapitado, depenado e comprado no mercadinho mais próximo. Isso porque, todo o santo domingo, Adoniran ia até a granja, comprava o frango mais bonito do corredor da morte e o trazia para casa debaixo do braço, bem apertado, para evitar que o bicho batesse as vigorosas asas e escapasse, como é direito de qualquer prisioneiro prestes a ser impiedosamente executado. No caminho para casa, porém, Adoniran vinha conversando animadamente com o animal, ainda que este não lhe respondesse palavra, por incapacidade ou por paúra. Fato é que se afeiçoava ao bicho, lhe colocava um nome e, como era de se esperar, não tinha coragem mais de matá-lo. Dona Mathilde já sabia que, ao chegar em casa, Adoniran lhe diria: “Velha, prepara o falecido porque a Jurema eu não vou matar não”! E era o que de fato acontecia.

Uma vez que a farsa se repetia todos os domingos, do quintal de Dona Mathilde já não se via o chão, tamanha a quantidade de galinhas ciscando e fazendo as suas franguices. Adoniran, satisfeito, brincava e conversava com elas, acariciava-as e chamava cada uma pelo nome, que apenas ele conhecia e distinguia. E a conta do milho subia consideravelmente.