Finesse

Tá pra aparecer alguém mais fino que o seu Cláudio. Freqüentador diário do Rio-Brasília, glória tijucana encravada na Almirante Gavião, seu Cláudio chega sempre por volta das quatro da tarde, “quando os chatos do almoço já foram embora e os pentelhos do jantar ainda não chegaram” – ele diz essa mesma frase sempre que se senta à mesa. À mesma mesa, diga-se.

Se isso pode lhes dar a impressão de que ele sai antes dos tais freqüentadores da noite – engano! Seu Cláudio diz, sempre também, com a mesma tonalidade imposta na voz rouca e calejada depois de mais quarenta anos fumando dois maços de cigarro por dia: “Quando eles chegam, já estou bêbado.”.

Foi bêbado que ele protagonizou a gloriosa cena que presenciei na semana passada.

Noite de terça-feira, Joaquim fatiando um salaminho pro André, outro que bate ponto quase todas as noites, e eu à mesa com o Simas e o Felipinho Cereal já com meia-dúzia de garrafas de Brahma e uma porção de carne assada com coradas.

Aproxima-se do bar uma senhora com um poodle. Ela senta-se – diga-se – numa mesa na calçada.

Seu Cláudio rosna antes do bicho e pergunta alto pro Joaquim:

- Pode cachorro de viado aqui no bar?

O Joaquim, também finíssimo, responde rindo:

- Não, não pode. Mas o cachorro da dona Leila pode!

- Obrigado, Joaquim! – diz, olhando com cara de poucos amigos em direção a nosso protagonista.

Seu Cláudio se levanta. Caminha, trôpego, até a mesa da dona, que está com o cachorro em seu colo.

Felipinho Cereal delira e diz baixinho:

- Vai dar merda, vai dar merda!

Ele puxa uma cadeira e diz:

- Posso?

Ela, sem jeito, dando de ombros, diz:

- Pode.

Seu Cláudio senta-se e fica mudo.

Dona Leila pede uma porção de carne assada sem coradas. Ao ser servida, dá de comer ao poodle.

Seu Cláudio:

- Mas assim já é demais, minha senhora... Ô, Joaquim!? Joaquim?! Pode essa porra aqui? Vou chamar a vigilância sanitária!

Joaquim ri de dentro do balcão.

Dona Leila perde a linha:

- O senhor não tem mais o quê fazer, não?

- Tenho, tenho... – e crava os olhos semi-cerrados no acentuado decote da coroa.

Ela finge que não vê e continua:

- Por que o senhor não se preocupa com a sua vida? Por que o senhor não se preocupa com o que o senhor vai comer? Está servido? – e estendeu o prato babujado pelo cão.

- Não dessa carne, minha senhora. Mas da sua.

Felipinho Cereal e Simas estão no chão, rolando de rir. Eu, atento, tomo nota mentalmente do diálogo de altíssimo nível. André e Joaquim batem papo no balcão, rindo de seu Cláudio.

- Petulante!

- A senhora não viu nada... – e coça, acintosamente, o saco.

- Seu Joaquim!? A conta, a conta!

- Eu pago, minha senhora... pode ir, pode ir...

Disse mais:

- A senhora não gostaria de me acompanhar até em casa pra conhecer o Tulípio?

- Tulípio?

Riu, apenas, o seu Cláudio. Dona Leila foi embora – pagou a sua própria conta – e o Joaquim:

- Exagerou hoje, hein, seu Cláudio! Que história é essa de Tulípio? Quem é Tulípio?

Seu Cláudio cochichou alguma coisa no ouvido do cearense, despediu-se de nós, e prometeu:

- Amanhã eu volto, Joaquim, quando os chatos do almoço já tiverem ido embora e os pentelhos do jantar ainda não chegaram

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