Texto do Parral

       VOTE NEU!
   MANÉ XICO Pa Prisidente
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Os marqueteiros decidiram: Abreu!

O oponente ideal – neutralizaria o candidato da oposição real, muito à frente nas pesquisas eleitorais. Sem chances reais (o mais alto índice de rejeição), polarizando as trocas de acusações com o “primeirão” tirar-lhe-ia votos vitais. A arenga racharia seu eleitorado, e o candidato oficial ganharia terreno discretamente.

Porém...

Lá nos cafundós da “terrinha”, um gaiato endinheirado, presidente (dono) estadual de um desses partidos de aluguel, quis fazer graça... Já que seu partido fora deliberadamente ignorado por todas as alianças eleitorais daquele pleito (quem pagaria por traço nas pesquisas?), decidiu se vingar: lançou candidato próprio à Presidência...

Quem?

Mané Xico.

Mané Xico?

Uma figura! E que figura! Por isso mesmo, muito popular, não só na cidade natal, mas em todo o estado.

Seu (literalmente) grande atrativo? O nariz: enoooorme e achatado – algo entre o focinho de porco e a tromba de elefante.

Qualificativos? Melhor entregador de jornal. Na velha bicicleta, atendia diariamente todos os bairros – entregando, vendendo assinaturas e classificados, fazendo as reportagens, entrevistas, matérias... Jornalista e publicitário de formação, micoempresário por adaptação, único funcionário (proprietário), administrava, caracteristicamente, a Folha Local. Seu desempenho dava ao jornalzinho uma grande aceitação, e a ele, uma quase folclórica popularidade.

Jordano, presidente (“dono”) estadual do “nanico” de aluguel: Partido da Encenação Nacional, propôs a galhofa eleitoral – “pra ‘zuar’ as regras do jogo”.

Nada a perder... Só uma pilhéria política... “Vamo nessa!”.

Mas, a Internet...

Humorísticas, as peças publicitárias da campanha, barata e simples, viram vídeos virais. Converteram a brincadeira local em estrondoso sucesso nacional, e ao candidato escracho num robusto fenômeno eleitoral – há seis meses das eleições bateu o terceiro colocado, com o “original” slogan: “Abreu? Fudeu... Vote neu!”, explorando o altíssimo índice de rejeição do candidato “buraco negro” – por sorver o eleitorado da oposição, segundo a direção da campanha oficial.

O candidato foi “evoluindo”, conforme aumentava seu cacife eleitoral. Ainda caricatural: olhar esbugalhado, realçando o narigão, trajado à moda matuta (parodiando o noivo de festa junina), mas já moderava o discurso. Com voz anazalada (timbre de pata choca), dizia: “Delete o Abreu, vote neu! – tô do lado do que é seu”. Aquele divertido teatro eleitoral tornou seu bordão mania nacional. Vote neu lhe deu tal popularidade que uma das alianças da oposição (a que perdeu o terceiro lugar), levou a sério a brincadeira e lhe fez a absurda proposta...

- Você está a meros dois pontos do segundo colocado – e em plena ascensão. Nesse ritmo, em no máximo três meses supera o primeirão... O acaso lhe deu uma oportunidade histórica. Há gente graúda disposta a investir na campanha – pra valer... –e até já costurando um acordo com a direção nacional do PEN, para unificar as oposições em torno do seu nome. Pense nisso...

Resposta: “Essa gente que dilapida o país nunca levou o Brasil a sério. Quem sabe, na brincadeira, a gente consegue? PENse nisso...”.

“Abreu” virou sinônimo de político ruim: os demais candidatos – e foco dos novos slogans: “Quer se livrar dos ‘Abreu’? Vote neu!”; “Xega de Abreu: Vote neu!”; “Abreu já deu. VOTE NEU!

A campanha: “Mané Xico Pa Prisidente! PENse nisso!” se tornou um absurdo fenômeno eleitoral, atropelando o poderoso esquemão político tradicional: na reta final, evaporou a candidatura do PUMPartido da Ultrajelidade Moral...

 

São Paulo, 02/02

Parral

(Escritor, 16 títulos publicados. Lançamento: Sua Excrescência – Sensdô Sivirino)

mcfelix@bol.com.br

 

 

 

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