Fausto Wolff

Love is a many splendor thing!

Onara era um japonês diferente. Para começar veio para o Rio e não São Paulo e, com seu faro, se fosse para a capital dos caçadores de esmeraldas (é, né?) teria dado preferência a um dos melhores botecos do mundo, o Bar do Léo.

Mas não, velhinho, e muito forte e temendo ser confundido com o bizarro ministro Malão, transferiu-se para o Rio onde fazia ponto invariavelmente no grande bar Brasil da Lapa carioca. Quietinho na sua mesa, depois de mandar para dentro vinte chopes começava seu discurso em japonês, ocasião em que alguém era escalado para levá-lo em casa. Era pertinho. Vivia a vida intensamente como se quisesse descontar algum tempo perdido. Seu moto era: beber, trepar e discursar em japonês. Tomara um porre por dia desde o primeiro dia em 1975 até abril de 1985 quando foi encontrado morto em seu pequeno e modesto apartamento. Havia praticado o haraquiri. Certa vez coube a mim levá-lo em casa. Convidou-me para tomar um saquê com ele. Enquanto vomitava no banheiro, vi sobre a mesa troféus e medalhas, uma delas concedida pela própria rainha da Inglaterra. Na parede, uma página inteira do New York Times com a seguinte manchete: "Samurai Japonês Continuou Lutando por Trinta Anos Depois do Fim da II Guerra". Então Onara, o japonês pau d'água, mulherengo, sambista e mangueirense, morador da Lapa, fora o tenente que permanecera na ilha de Lubang, nas Filipinas, de 44 a 74, fazendo guerra de guerrilha, esperando que um oficial superior lhe desse a ordem de depor suas armas? Quando Onara, cujo primeiro nome era Hizoo, saiu do banheiro, perguntei-lhe por que não ficara no Japão onde era herói. E ele:
– Zapon perdeu vergonha, Zapon perdeu tradiçôn, Zapon virou americano. Onara prefere Mangueira.
Quando estou bebendo, como agora, costumo inventar histórias de japoneses. Todo cuidado é pouco...

Fausto Wolff, 66 anos, é jornalista desde 1954, autor de mais de trinta livros entre ficção, jornalismo, teatro, poesia. Foi um dos editores da Tribuna Socialista, Pasquim, Bundas, Pasquim 21 e escreve uma crônica diária no Jornal do Brasil. Já tem alguns anos que parou de beber nas horas ímpares.